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A Telinha



Angela Puppim


Fragmentos do Agorar – Crônicas do Cotidiano

Angela Puppim – Escritora


Plim  plim!!

A TV Telefunken chegou em nossa casa e foi recebida com grande entusiasmo.

A nossa televisão foi a primeira do bairro. Como não poderia deixar de ser àquela época, ela foi compartilhada com toda a vizinhança. Todas as noites tinha sessão em nossa casa. Os vizinhos chegavam com suas cadeiras nas costas, dispondo-as na sala, na varanda e em todos os espaços possíveis. Que alegria compartilhar aquela grande novidade com a nossa vizinhança! Que lindo mundo novo!

Primeiro, para horror da meninada, assistíamos no canal de TV Tupi ao “Repórter Esso”, e logo depois, para sua alegria, à série “Alô, Doçura”, que nos brindou com lindas comédias em que Eva Wilma e John Herbert encantavam em cena.

Assim seguimos, várias semanas e meses, embalados e apaixonados pela nossa TV Telefunken! Ela capturou nossas mentes e corações e foi motivo de muita distração e grande alegria comunitária.

Estávamos acostumados a escutar o rádio, as suas novelas, a imaginar os personagens, a idealizá-los, assim como a tudo o mais que ouvíamos.

Com a chegada da nossa Telefunken, tudo mudou! Era incrível ver aquelas imagens entrando em nossas vistas, em nossas casas! Nós, crianças, pensávamos que os artistas nos viam do outro lado, e logo nos comportávamos bem, sentados e muito atentos – as imagens contaminavam e roubavam a nossa audição.

Logo, logo a TV popularizou-se e cada vizinho foi adquirindo a sonhada televisão!

Mal sabíamos nós que seríamos dominados e manipulados por esse quarto poder!

Ingênuos, encantados com o progresso, com a era do entretenimento, fomos todos – adultos e crianças – sequestrados de nossas individualidades, levados a um consumismo de massa, manipulados por meio das informações que nos eram apresentadas, com que éramos insistentemente bombardeados. Tudo isso transformou definitivamente as nossas vidas e os nossos destinos.

Hoje percebo que aquele fascinante mundo novo, de novo não tinha nada, que a escravidão não havia acabado e que estavam lá, na telinha da TV, os senhores de engenho, com seus troncos, com suas máscaras, com seus cepos e suas chibatas.

Liberdade e alegria… a gente ainda vê por aqui?

Plim  plim!!!

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