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Covid-19: a cidade brasileira que viu casos desabarem após ‘lockdown de verdade’



Araraquara fechou todas as atividades por quase uma semana. Só serviços de saúde permaneceram abertos

Enquanto o presidente da República critica governadores e prefeitos questionando a eficácia do lockdown, uma cidade no interior de São Paulo, vê despencarem os casos de Covid-19, após a paralização de atividades não essenciais.

Para Bolsonaro, lockdown gera desemprego e suicídio. “Eu não adotaria a política de lockdown, não deu certo no ano passado. Eu lamento os fechamentos indiscriminados como eu estou vendo aqui em Brasília, toque de recolher. Isso é uma afronta, é uma coisa inadmissível”, disse o presidente.

Especialistas, no entanto, defendem o lockdown, para evitar a disseminação ainda maior do coronavírus e o colapso dos sistemas de saúde. Médicos e cientistas propõe ações mais rigorosos do que as medidas tomadas por governadores e prefeitos pelo país. Algumas cidades, no entanto, estão adotando medidas de restrições mais amplas e obtendo resultados animadores. É o caso de Araraquara, no interior paulista.

A 285 quilômetros da capital, Araraquara foi uma das primeiras cidades paulistas a sofrer um colapso no sistema de saúde em 2021.

A partir da segunda semana de fevereiro, o número de casos subiu vertiginosamente e as enfermarias e unidades de terapia intensiva (UTI) atingiram lotação máxima.

Desde a última sexta-feira (05/03), porém, apareceram os primeiros indícios (ainda bem tímidos) de alívio na pandemia por lá. O número de novos casos de covid-19 diagnosticados caiu pela metade, apesar de a taxa de internações e mortes ainda estar em alta. Mas o que o município fez de diferente do resto do Brasil? E o que pode servir de aprendizado da experiência em curso no interior de São Paulo?

A equação do caos

O relaxamento das medidas de prevenção, como o distanciamento social, o uso de máscara e a lavagem das mãos, foi o principal motivo para a pandemia voltar a piorar em Araraquara (assim como no Brasil todo).

Esse cansaço após um ano de controle veio a reboque das aglomerações de final de ano, motivadas por uma sequência de eventos, como as eleições municipais, o Natal e o Ano Novo.

Para ter ideia, no final de 2020 e início de 2021, cerca de 25% dos exames para detectar covid-19 realizados neste município paulista voltavam com resultado positivo. A partir de fevereiro, essa taxa ultrapassou os 50%.

Enquanto os casos subiam de forma preocupante, uma parceria entre a prefeitura local e o Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo descobriu um terceiro fator que ajudava a explicar o cenário, cada vez mais complicado.

“Nós identificamos que mais de 90% de todas as amostras de pacientes infectados que foram analisadas neste estudo eram causadas pela variante P.1 do coronavírus, que havia sido detectada pela primeira vez em Manaus”, relembra a enfermeira Eliana Mori Honain, secretária municipal de saúde de Araraquara.

Pelo que se sabe até o momento, essa nova variante é bem mais infecciosa que as versões anteriores, o que ajuda a explicar em parte a subida nos números de acometidos pela enfermidade.

“De uns tempos para cá, passamos a observar a chegada de pacientes mais jovens, com quadros mais graves e que necessitam ficar mais tempo internados”, percebe a infectologista Ana Rachel Seni Rodrigues, que trabalha e dá plantão em vários hospitais de Araraquara.

A partir da segunda semana de fevereiro, as enfermarias e as UTIs da cidade ficaram absolutamente lotadas.

Por consequência, houve um aumento considerável no número de mortes — a cidade contabiliza até dia 10 de março um total de 264 óbitos por covid-19, sendo que 65% deles foram registrados nos primeiros meses de 2021.

“Nós vivemos no limite e foi muito estressante lidar com a falta de leitos e providenciar soluções de uma hora para a outra”, admite Rodrigues.

‘Remédio amargo’

Sem meios de mitigar a crise sanitária, a prefeitura não teve outra saída e precisou decretar medidas bastante drásticas.

“Fizemos um lockdown de verdade, diferente do que acontece na maioria dos lugares do país”, diz Honain, que também é professora do curso de medicina da Universidade de Araraquara.

A partir de 20 de fevereiro, todos os serviços que não tinham a ver com a área da saúde foram suspensos, incluindo o transporte público e os supermercados (que só podiam funcionar pelo sistema de delivery).

O fechamento total de Araraquara durou pouco mais de uma semana. Na sequência, a cidade se encaixou na “fase vermelha”, definida pelo Governo do Estado de São Paulo no início de março.

A variante P.1, identificada pela primeira vez no começo do ano em Manaus, é um dos fatores que ajudam a explicar o colapso em Araraquara

O decreto do governador João Dória, ainda em vigor, criou o “toque de restrição”, que limita a circulação de pessoas entre às 20h e às 5h da manhã, e estabeleceu uma longa lista de exceções para alguns serviços não essenciais continuarem a funcionar.

“Por aqui, mercados, açougues e padarias voltaram a abrir recentemente, mas continuamos a restringir cultos em igrejas e templos e as aulas nas escolas”, descreve Honain.

Como resultado dessa política, Araraquara começa a apresentar uma queda no número de novos casos de covid-19 nos últimos cinco dias.

“Até 5 de março, tínhamos entre 180 e 200 novos infectados por dia. Agora, essa média baixou para 60 a 85”, calcula a secretária de saúde.

Apesar do avanço, as taxas de hospitalização continuam altas e preocupantes: 79% dos leitos de enfermaria e 91% das UTIs estão ocupados no momento.

Honain acredita que esses números (que já baixaram um pouco desde o nível mais crítico do colapso) vão apresentar uma queda maior a partir das próximas semanas.

“Pela evolução natural da doença, sabemos que os sintomas se agravam e requerem assistência a partir do oitavo ou nono dia de infecção. Portanto, com menos gente com exames positivos agora, observaremos em breve uma baixa nas internações mais pra frente” raciocina.

O que o futuro reserva

Por mais que as observações em Araraquara representem uma boa notícia, elas ainda são bastante iniciais e não sinalizam de maneira alguma um encerramento da pandemia ou uma “imunidade de rebanho” pelo contato direto com o vírus.

“Se nas próximas semanas percebermos um aumento considerável no número de novos casos e a taxa de ocupação hospitalar estiver acima dos 85%, vamos tomar medidas mais drásticas de novo”, afirma Honain.

E, mesmo com os avanços recentes, os gestores de saúde do município no interior paulista sabem que o caminho para acabar com a pandemia passa necessariamente pelas campanhas de vacinação contra a covid-19.

“Enquanto não tivermos mais de 70% da população imunizada, e por ora estamos bem longe disso, o lockdown é a medida disponível que dá resultados”, diz Honain.

“Afinal, é melhor fechar as atividades a abrir novas covas”, completa.

Fonte: Diário de Niterói com BBC Brasil

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