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Um Peru de Natal



Angela Puppim


Fragmentos do Agorar – Crônicas do Cotidiano

Angela Puppim – Escritora


Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã. Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio. Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé(…)

Fragmento do conto “Uma Galinha”, de Clarice Lispector

Ao ler o conto de Clarice, logo me veio à mente um episódio pitoresco de minha infância que jamais esquecerei.

Todos os Natais, meu pai comprava um peru vivo para que minha mãe o preparasse para a ceia da família.

Sempre, nos dois dias que antecediam o Natal, era atribuição de meu pai ir ao abatedouro comprar o peru mais gordo que tivesse, e, também, jovem. Tinha que ser jovem, pois se velho, a carne assada ficava muito dura. Depois de escolhido e devidamente apalpado, suas duas pernas eram amarradas com barbantes; logo após o peru era colocado dentro da sacola de pano e levado vivo até a cozinha de minha casa, onde era entregue a minha mãe.

Minha mãe tinha a responsabilidade de prepará-lo para a Ceia de Natal. Essa preparação seguia um ritual um tanto quanto macabro: um copo de cachaça era pouco a pouco derramado na garganta do peru, que sem alternativa, ia engolindo a maldita até ficar bêbado. Aí, era o momento de estrangulá-lo, cortar a sua cabeça, depená-lo, colocá-lo de molho em vinhas d’alho por 24 horas; só depois então era assado, recheado de farofa e adornado com fatias de abacaxi e laranjas. Pronto!  O peru assado era o principal prato da Ceia! Ocupava então lugar de grande destaque na mesa de Natal.

Todo ano, o mesmo ritual. Eu destetava assistir a tudo isso, me sentia muito triste com o destino do peru, ave linda! Não comia o peru e ficava indignada com a gula dos familiares, seguida dos brindes de Feliz Natal!

Ocorre que, num certo ano, o mais especial dos Natais de menina, esse ritual foi alterado completamente.

Meu irmão mais velho havia se formado em Medicina com especialização em Ginecologia e Obstetrícia e fazia Residência no Hospital Universitário Antônio Pedro, localizado no Centro de Niterói, RJ. O hospital atendia pelo SUS gestantes vindas de várias localidades do Estado do Rio de Janeiro. Eram mulheres de baixa renda que vinham dar à luz seus bebês no Hospital Universitário Público.

Na semana que antecedeu o Natal daquele ano, meu irmão fez o parto de uma adolescente moradora de Araruama; seu pai, muito agradecido ao médico, lhe deu de presente um peru, vivo, jovem e muito forte!!!

Meu irmão trouxe o peru de presente para minha mãe. Meu pai ficou contente, pois economizaria naquele ano.

O peru foi amarrado ao botijão de gás no dia que chegou e minha mãe se preparou para, no dia seguinte, realizar o preparo do prato principal de Natal.

Na manhã seguinte, quando minha mãe foi pegar o peru, ele havia se soltado e estava no parapeito da área de serviço, contemplando a linda vista do 3º andar do prédio.

Quando minha mãe foi vagarosamente apanhá-lo, o peru voou o mais lindo de seus voos. Com as asas bem abertas, planou e pousou no jardim do vizinho. O jardim mais bonito das redondezas, cujo dono era um militar aposentado mal encarado; a única coisa boa que fazia era cuidar, cotidianamente, do maravilhoso jardim de sua casa.

Minha mãe, desesperada, me pediu para chamar imediatamente o meu pai para resgatar o peru.

Eu estava eufórica com a fuga do peru e não queria chamar meu pai. Mas, ao me deparar com o chinelo na mão de minha mãe, tratei de olhar pela janela e vi que meu pai se encontrava em uma roda de amigos, na padaria em frente ao nosso prédio, tomando umas cervejas e proseando.

Para não demorar mais, com medo do chinelo, eu comecei a gritar: “Papai, o peru está na casa do vizinho!!!! Papai, o peru está na casa do vizinho!!! Papai, o peru está na casa do vizinho!!!”

Na padaria, um grande alvoroço se formou. Os amigos de meu pai começaram a caçoar dele e gritavam: “Chiquinho (apelido de meu pai), seu peru está na casa do vizinho!!!  Chiquinho, seu peru está na casa do vizinho!!! Chiquinho, seu peru está na casa do vizinho!!!”

Meu pai, envergonhado, não queria pegar o peru, e foi uma briga danada entre ele e minha mãe, até ele ir pegar o peru que ciscava no jardim do vizinho.

A missão resgate não foi fácil, pois o peru voava, pulava, corria, destruía plantas, tudo isso sob grandes protestos do dono da casa, o tal vizinho militar ranzinza.

Para minha alegria, e tristeza de minha família, o peru voou e fugiu. Ninguém nunca mais o encontrou. 

Pensei que naquele ano teria a melhor Ceia de Natal da minha vida.  Já havia imaginado a frase com que expressaria o meu brinde: “Viva o Meu Peru Herói! O mais esperto e vivo do pedaço! Viva!”

Mas, para minha tristeza, naquele Natal, o prato principal foi um leitãozinho assado, com um pêssego dentro da boca e adornado com fatias de abacaxi e laranjas.

Que deplorável é esse tal de Bicho Homem!!!

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