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Vovó Viu a Uva



A frase é da cartilha Caminho Suave, conhecida de todos que cursaram o então curso primário, hoje ensino fundamental, entre as décadas de 1950 e 1990. Essa cartilha foi utilizada em minha alfabetização, e a frase deu início ao meu letramento — eu tinha uma relação afetiva com ela. Logo após o meu nascimento, minha mãe contraiu tuberculose e teve que se afastar da família, por três longos anos, para tratar da saúde, deixando minha avó com a responsabilidade de cuidar de mim e de meus irmãos, juntamente com o meu pai.

Esse acontecimento me fez criar vínculos profundos com a minha avó materna, de quem herdei o nome Angela Maria. Foi justamente a partir da frase que dá nome a este texto que comecei a ler e escrever. Essa sentença teve um sabor tão especial quanto o leite quentinho com que vovó Angela Maria todo dia me alimentava — evocava em mim um sentimento profundo de amor por minha avó. Tudo isso tornou mais fácil o meu aprendizado.

Essas memórias com que inicio a crônica de maio me serviram como inspiração para uma homenagem a todas as mães – às avós, especialmente.

No angustiante ano de 2021, em plena pandemia do Coronavírus, fui avó pela primeira vez. Vieram, então, para encher meu coração de esperança e alegria, dois netos no mesmo ano: Yara e Pedro. Nesse ano completei 70 anos de vida.

Ser avó, tardiamente, me levou a sentir um amor nunca antes vivenciado. É como um sentimento enraizado em muitas e profundas raízes ancestrais, e que, como seiva, vai germinando novas gerações no mundo.

Avó

Inaugura-se um novo tempo

Amanhecer de semente

Em fértil ventre

Nascer de amor-perfeito

Fruto de meu fruto

De minhas raízes ancestrais

Síntese da vida

Renascer

Resplandecente Amor

Angela Puppim

No gigantismo que representa esse sentimento de “ser e estar avó” acumulam-se amores e saberes longínquos de minhas ancestrais. Dentro de mim moram Selesta, minha mãe, Angela Maria, a avó, e Domênica, a bisavó; mas também minha avó paterna Maria e a bisavó Cecília.

Minhas ancestrais eram, todas elas, mulheres fortes.

As de origem materna, imigrantes italianas, tiveram a coragem de se aventurar por terras distantes para construir outros futuros. Costureiras de seus destinos, a agulha da coragem desbravando os caminhos, a linha dando o ponto em seguida, tecendo o devir.

As de origem paterna, doceiras, comerciantes de iguarias, adocicavam a vida sofrida da lida, calda engrossada com lágrimas, trabalho, amores, suor e doçura.

Mulheres criativas à frente de seu tempo. Mães, avós, bisavós, amantes da vida e de suas proles. Protagonistas da vida e do amor fértil e dadivoso — os netos, suas heranças mais valiosas.

Encontro eco desse sentimento nas palavras de Rachel de Queiroz, em sua crônica “A Arte de Ser Avó”:

“Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu… É como dizem os ingleses, um ato de Deus”. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto. O neto é, realmente, o sangue do seu sangue, o filho do filho, mais que filho mesmo…

(…)

E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono abre o olho e diz: “Vó!”, seu coração estala de felicidade, como pão no forno!

Penso em como quero viver a experiência disso que é ser avó, e logo me vem a arte de contar histórias, um rito das tradições orais dos Griots e Griotes africanas, a principal fonte de armazenamento e transmissão de contos iniciáticos, anedotas e provérbios, através dos quais os africanos, de qualquer idade, aprendem sobre si mesmos, sobre os outros e sobre o mundo. Essa arte também é praticada pelos povos originários no Brasil e no mundo.

As Griotes são as mestras da palavra, são elas que não permitem que a cadeia de transmissão dos conhecimentos fundamentais de uma vida se apague. (Segundo o tradicionalista malinês Amadou Hampâté Bâ, “na África quando um velho morre, uma biblioteca se incendeia”).

Quero ser uma Griote, como minhas ancestrais.

Minha mãe era exímia contadora das histórias; aprendeu com sua mãe e sua avó. Também inventava histórias e as contou para filhos, netos e bisnetos. Em sua homenagem organizei um livro com as histórias que ela contava para que ficassem guardadas como uma herança para as novas gerações de nossa família. O livro pode ser lido on-line no link a seguir: https://issuu.com/flavia_mattos/docs/vovo_selesta_web/1

Quero ser a portadora dessa tradição de contar histórias para os meus netos, de ser a intermediária entre o nosso cotidiano amoroso e um plano mais sutil, desejo transmitir para eles esse dom imaterial da palavra que encanta histórias.

Além das muitas histórias e contos de fadas clássicos que vou lhes contar, está, também, a história de quem fui e sou:

Era uma vez uma avó que:

  • Usou minissaia muito curta, calças boca de sino, botas altas, e queimou seu sutiã em praça pública junto com outras mulheres, como símbolo de liberdade do corpo feminino.
  • Ouvia e amava os Beatles, Janis Joplin e Rolling Stones.
  • Se apaixonou pela MPB e, também, pela Jovem Guarda.
  • Ficou alucinada com o samba.
  • Gosta da batida do Funk e é fã da Anitta.
  • Andou em motos e carros conversíveis sem capota.
  • Fumou cigarros e outras coisas mais, mas não gostou.
  • Bebeu gin-tônica com Coca-Cola e limão — cuba libre — nos bailes embalados por orquestras maravilhosas.
  • Chegou em casa às 4 da manhã e saiu para trabalhar logo cedo.
  • Adora cinema e é fã dos filmes brasileiros.
  • Foi do movimento estudantil na faculdade de Economia.
  • Lutou contra a ditadura militar de 1964, que perseguiu os estudantes, matou um sem-número deles, torturou — até hoje não se sabe o paradeiro de muitos. Por isso ela ainda hoje luta para que a ditadura e a tortura nunca mais voltem a acontecer em nosso país.
  • Participou da Campanha das Diretas Já.
  • Foi sindicalista, e como economista participou do núcleo de economistas que fundou o PT, o maior partido brasileiro organizado pela base, e que teve o Presidente da República mais bem avaliado do Brasil, o Presidente Lula, que diminuiu as desigualdades sociais no Brasil e acabou com a fome e a miséria no período que governou.
  • Viu esse Ex-Presidente ser perseguido politicamente, impedido de se candidatar novamente a presidente e ser preso injustamente por 580 dias.
  • Teve a alegria de ver a justiça devolver-lhe os direitos políticos e condenar como parcial o juiz que o perseguiu. Até a ONU julgou o juiz parcial e desmascarou a farsa que o tirou do processo eleitoral e jogou o país na maior crise política de sua história.
  • Viu com muita e profunda tristeza um genocídio acontecer no Brasil, por conta de um governo que negou a ciência e as formas de enfrentar uma crise sanitária sem precedentes no mundo.
  • É de esquerda e tem uma Esperança Equilibrista de que juntos, com a maioria do povo brasileiro, vamos reaver nossa Democracia de fato e de direito. E com isso colaborar para um futuro melhor para vocês, meus netos.
  • Acredita que Um Novo Mundo é Possível.
  • Luta, luta, luta e não tem Medo de Ser Feliz.

Isso para que saibam e não esqueçam que a Bela e a Fera, Rapunzel, Alice no País das Maravilhas, o Saci-Pererê, a Yara, dentre outras, vivem dentro de sua avó.

Por fim, essa avó tem um sonho de ser lembrada pelos filhos, netos e bisnetos tal como Cazuza se lembrou de sua avó paterna, Maria José, quando fez este lindo poema a pedido dela. O poema se transformou numa música interpretada, a pedido da mãe de Cazuza, por Ney Matogrosso, seu grande amigo.

Poema, de Cazuza

Eu hoje tive um pesadelo

E levantei atento, a tempo

Eu acordei com medo

E procurei no escuro

Alguém com o seu carinho

E lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança

Do tempo que eu era criança

E o medo era motivo de choro

Desculpa pra um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo

Mas não chorei, nem reclamei abrigo

Do escuro, eu via o infinito

Sem presente, passado ou futuro

Senti um abraço forte, já não era medo

Era uma coisa sua que ficou em mim

E que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu

Ou está perdendo alguma coisa

Morna e ingênua que vai ficando no caminho

Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado

Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás

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