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Feijão com Arroz



Angela Puppim


Fragmentos do Agorar – Crônicas do Cotidiano

Angela Puppim – Escritora


O feijão com arroz é um típico prato brasileiro.

Quem teve a ideia de misturar os dois? Ninguém sabe.

Uma das hipóteses levantadas pelo pesquisador brasileiro Luís da Câmara Cascudo (1898 – 1986), em seu livro História da Alimentação no Brasil, é a de que o arroz com feijão começou a ser consumido em 1808 com a chegada de dom João VI, que introduziu o arroz no rancho dos soldados. De qualquer forma, a mistura é fonte de nutrientes, um sucesso de nutrição e de sabor para os brasileiros.

Outra hipótese, formulada por mim, é que fomos eu e minha irmã que inventamos a ideia de misturá-los, crus, dentro dos sacos do armazém de seu Chiquinho, meu pai.

Daí vem a minha paixão, não pelo prato típico do brasileiro, mas pelas lembranças afetivas, e a admiração por meu pai: “Seu Chiquinho”, como era carinhosamente chamado por todos.

Meu pai era dono do maior armazém do bairro em que morávamos, isso dos anos de 1940 até 1960, aproximadamente, pelo que me recordo.

As primeiras memórias afetivas que tenho de meu pai vêm da lembrança das visitas diárias que eu e minha irmã fazíamos ao seu armazém levando a marmita do almoço preparado por minha mãe. Éramos muito pequenas, por isso íamos segurando muito firme nas mãos de minha mãe, especialmente ao atravessar a linha do trem.

Ao chegarmos ao armazém, eu e minha irmã íamos diretamente aos sacos que armazenavam o arroz e o feijão, tomávamos posse da concha de pegar grãos e preparávamos a nossa comidinha predileta, feijão misturado com arroz. No saco do arroz misturávamos o feijão e vice-versa.

Nossa mãe ficava furiosa conosco, mas meu pai dava risadas de nossa brincadeira de criança e nos brindava com as mais deliciosas balas de seu baleiro encantado.

Seu Chiquinho era um comerciante apaixonado por sua profissão, a exercia com felicidade e espírito social. Ele tinha consciência das desigualdades sociais em nosso bairro, onde a pobreza e a fome eram visíveis e gritantes.

O armazém era a principal fonte de abastecimento de alimentos do bairro. Os clientes realizavam suas compras e tudo era anotado em suas cadernetas. Quando o freguês recebia o seu ordenado, o dono do armazém sabia de cor os dias em que cada freguês recebia e já esperava o pagamento das dívidas do mês para aquela data. O que valia mais era a confiança e a palavra.

Ao recordar esses fatos hoje, me questiono: como perdemos esse tempo em que o que valia mais eram a confiança e a palavra nas relações?

Meu pai tinha grande compaixão pelas mulheres pobres que eram chefes de família, cujos maridos as abandonavam com proles numerosas.

Ele perdoava todas as dívidas das mulheres chefes de família que ficassem doentes e não pudessem trabalhar, das desempregadas, até que conseguissem um novo emprego, das que já idosas tinham os filhos presos e perdidos para o crime e viviam desamparadas e sós.

Sempre que uma dessas situações acontecia, os filhos iam informar ao meu pai, pois geralmente as mulheres sentiam vergonha de relatar sua situação pessoalmente e mandavam os filhos contarem para o Seu Chiquinho o fato ocorrido. Imediatamente meu pai apagava a dívida daquela mulher de sua caderneta. Além disso, continuava fornecendo os alimentos àquelas chefes de família, até que pudessem pagar com o fruto de seu trabalho, ou quando ficassem curadas das doenças.

Ele mesmo ia nas casas das famílias levar os mantimentos, já que as crianças não podiam carregar tanto peso.

Certa vez, ao dirigir-se, após fechar o armazém, a uma residência em uma comunidade das mais perigosas do bairro chamada “Buraco Quente”, foi pego em uma emboscada de jovens já envolvidos em crimes.

Anoitecia, e meu pai, carregando no ombro o pacote de mantimentos embrulhados, foi cercado pelos jovens, que encostaram suas facas, uma em sua barriga, a outra em suas costas. Meu pai começou a tremer, parado ali, esperando a morte, quando escutou uma voz, firme e seca: “Nesse ninguém toca”.

Era o “dono do Buraco Quente”, o maior criminoso do local, que havia fugido do presídio e vinha aterrorizando todo o bairro. Mal sabia meu pai que ele era o filho da mulher idosa a quem meu pai estava indo entregar o pacote de mantimentos.

O jovem criminoso, maior líder do crime, ajoelhou-se em frente ao meu pai, revelou quem era sua mãe e desculpou-se.

Meu pai levantou o jovem do chão e abraçou-o, disse-lhe que compreendia os motivos que o haviam levado ao crime, que se colocava no lugar dele e que jamais o julgaria, que desejava que ele conseguisse sobreviver e tivesse um futuro menos sofrido.

Recordo-me de meu pai contando esse triste episódio à minha mãe, enquanto todos nós chorávamos.

Mais uma vez meu pai me fez sentir o meu amor e admiração por ele agigantar-se.

Hoje o meu pai Chiquinho, apesar de já ter falecido, vive em mim. Vivem em mim os seus valores humanos, a sua solidariedade, a sua empatia pela dor do outro, a sororidade em mim.

É por isso que no Dia dos Pais o meu almoço foi e sempre será o feijão com arroz.

Escrevo em homenagem a meu pai e a todas as mães chefes de família que são o esteio de seus filhos e que muitas vezes não têm na mesa feijão com arroz para comer e dar-lhes de comer.

Escrevo também esta crônica para a publicação do mês de agosto em homenagem a todos os pais que amam e cuidam dos seus filhos e são solidários à dor do outro.

Angela Puppim

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