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Breves Frames



Rudá Lemos

Passagem rápida pela Mostra de SP: Enfim depois de anos com essa vontade consegui me dar de presente uma ida, mesmo que rápida, para São Paulo, ver filmes da Mostra Internacional de Cinema. Foram ao todo 10 filmes em 3 dias com um saldo de 2 obras-primas; 5 ótimos; 1 competente e apenas 2 fracos, ao que segue o texto com comentários sobre eles.

Começando com os que mais me encheram o olhar: o chinês “Até Logo, Meu Filho” e o galego “O Que Arde”. Exibido no último Festival de Berlim, em que saiu com dois prêmios para a atuação de seus protagonistas, a mãe chorosa Yong Mei e o pai contido Wang Jingchun, “Até Logo, Meu Filho” é de uma construção dramática que beira à perfeição. Wang Xiaoshuai, diretor que produz desde os anos 90, mas que só agora tive contato, constrói em cenas belíssimas uma odisseia familiar desoladora que perpassa o crescimento econômico recente da China. Entre os temas: a desolação da perda familiar, os conflitos de geração e gênero, as relações trabalhistas frágeis, a demolição do passado e da memória dos espaços… Tudo filmado de forma cadenciada, com stand-cams lindos e uso de elipses e cortes abruptos para engolir seco um mal-estar que oferece escapes porque o vento continua a bater no rosto e as mulheres continuam pescando ao nascer do sol.

Nesse mesmo estilo de filmar sem pressa e valorizar os tempos mortos, mas com um enxugamento do drama a um nível menos declamado e mais sensorial, “O Que Arde” é outra pérola do cinema contemporâneo. O que Olivier Laxe faz aqui é perto de ser considerado um milagre no acompanhamento do cotidiano de uma comunidade rural e da pureza do protagonista que volta para o lar da mãe. Há um mistério em torno desse personagem e também uma contenção emocional que explode em fogo. Como o vírus que afeta o eucalipto, Amador é acusado de contaminar aquele local que arde em chamas, um resultado intempestivo de um filme calcado na observação do homem com a natureza, neste caso a Galicia, plenamente iluminada pela direção de fotografia de Mauro Herce. “Você não precisa entender a letra para gostar da música”, diz a veterinária ao tocar “Suzanne” de Leonard Cohen em seu veículo enquanto leva a vaca para cuidar.

Também nessa relação homem/natureza em comunidade rural, “Honeyland“, vencedor do prêmio de melhor documentário da Mostra e de Sundance, leva-nos até a Macedônia para acompanhar uma simples coletora de mel – mais um filme em que o cotidiano é a grande construção narrativa. O rosto expressivo da camponesa que tem que lidar com a solidão, em cuidar da mãe doente e ir para a feira urbana vender seu mel é o que se tem a levar desse sensível filme, penalizado apenas por uma cópia digital que não estava em melhores condições de imagem.

Também da Macedônia (é só num evento como esse que conseguimos ver dois filmes desse país?) e também calcado em rostos expressivos, “Deus é Mulher e o Nome Dela é Petúnia” traz uma mulher que desafia a igreja local ao participar e vencer uma atividade que era destinada apenas aos homens. Há no ato uma picardia e deboche às instituições sacralizadas e burocráticas que nos remete ao que o cinema romeno tem feito nos últimos anos. É um filme de humor seco que revela uma mal-estar social ao mesmo tempo que faz refletir sobre os dogmas e os verdadeiros significados dos valores religiosos.

Outra sátira religiosa é “Bobo da Corte“, filme póstumo de Luiz Rosemberg Filho, considerado um dos cineastas brasileiros mais inventivos e que nos deixou esse ano. Filme de estrutura simples, é centrado nos monólogos encenados por Alexandre Dacosta em um contexto de decadência de reino medieval, mas que lança pontes ao nosso cenário político atual. Mesmo com a simplicidade, há um trecho muito efetivo com imagens de vulcões e outras paisagens naturais ao som de jazz, antecipando divagações de Alexandre sempre com uma utilização criativa do espaço. Entre maquiagem borrada, espelhos e na quebra da quarta parede, há reflexões profundas sobre o niilismo, a poder, o cômico, a história e a morte.

Após valorizar essa falsa simplicidade do cinema de Rosemberg, embarquei na China noir de “O Lago do Ganso Selvagem“, excitante thriller em que o primeiro plano é um personagem vendo as horas em seu relógio de pulso marcando o início de um playground de cenas de ação, flashbacks que mais confundem que explicam, sensualidade nos planos, agilidade nos cortes e contenção atmosférica. Um filme que cativa mais por essa explosão de efeitos do que por sua trama dispersa.

Já “Segredos Oficiais” revisita os bastidores da invasão americana no Iraque, após o 11 de setembro. Hoje sabido que não havia armas nucleares no país, o filme revela a manipulação dos governos de George W. Bush e Tony Blair de interferir no Conselho de Segurança da ONU para garantir aprovação para a guerra. É um filme eficiente no seu dinamismo entre o trabalho do jornalismo, as instituições de segurança e o meio jurídico com cenas reais dos discursos desses déspotas (há uma montagem com cenas de destruição do Iraque com o pronunciamento em off de Bush que é uma forma a mais de colocá-lo na latrina da história). Uma pena que a escolha da atriz que interpreta a delatora do projeto de manipulação governamental não foi das melhores. O filme se apoia muito nas expressões de Keira Knightley, que ao meu ver são tão forçadas que distraem na imersão da obra.

Para esquecer tiveram duas decepções em que nem vale a pena se estender na análise e nem marcar os trailers: “La Llorosa” exibe uma Guatemala marcada por um passado ditatorial e se centra na vida familiar do algoz militar, mas não desenvolve com solidez nem aquele microcosmo e muito menos os conflitos políticos e fantasiosos que sucedem; e “Uma Lua Para Meu Pai”, filme ensaio que tenta relacionar reconstrução corporal após doença com a revolução iraniana e a importância da borracha (!!!!)

Para finalizar, um filme doce, que pode até parecer institucional e vanglorioso em excesso, mas seu tema conecta de imediato meu coração cinéfilo, indo para São Paulo assistir filmes pela primeira vez e encantando com a sala do CineSesc onde ele foi exibido. O grande Abel Ferrara, cada vez mais afeito ao cinema documentário, nos trouxe “O Projecionista“, em que acompanha um empresário que veio do Chipre para Nova York e se tornou um dos maiores empreendedores de cinema de rua da região. Fazendo um inventário dos cinemas de rua que sumiram das agitadas ruas de NY, Ferrara se junta a ele em uma cumplicidade também cativante. Combinado a registro de filmes antigos nada óbvios, inclusive com cenas de filme pornôs que tanto ocupavam as ruas, é um grito em defesa ao romântico ato de ir ao cinema.

Ao final, o júri da Mostra consagrou após a seleção dos 14 mais bem votados pelo público dois filmes dirigidos por mulheres: o alemão “System Crasher” (Nora Fingscheidt), que venceu o Alfred Bauer de filme inventivo em Berlim esse ano e o australiano “Dente de Leite” (Shannon Murphy), espécie de “A Culpa é das Estrelas” indie.

O cinema negro existe – O lado ruim de ter ido para São Paulo foi perder o grande Encontro Zózimo Bulbul de cinema, oportunidade única de assistir filmes da África e demais países diaspóricos, inclusive vários brasileiros com a temática racial.

Após a abertura com palestra de Angela Davis, é de se destacar a exibição dos seguintes filmes (e ir em busca deles por outros meios – ou mesmo cobrar das distribuidores de cinema trazerem esses filmes para circuito – só não é inacreditável esse silenciamento porque sabemos o que é o racismo): “The Mercy of The Jungle“, de Joel Karekezi (Ruanda), vencedor do último FESPACO, o maior festival de cinema africano do mundo; “The Revolution Won’t Be Televised“, de Rama Thiaw, sobre a luta contra a reeleição do presidente de Senegal em 2011; “Through a Lens Darkly“, de Thomas Allen Harris, que assisti no Festival do Rio de 2014: um emotivo documentário que relaciona o trabalho fotográfico de artistas negros com as fotos familiares de várias famílias negras americanas; vindo do interessante longa “No Coração do Mundo”, Gabriel Martins apresentou “Nove águas”, seu novo curta sobre um Quilombo em Minas Gerais; “Meu Amigo Fela“, documentário de Joel Zito Araújo do genial e combativo músico Fela Kuti que vai estrear no Espaço Itaú de Cinema no dia 7 de novembro; “Fartura”, novo curta de Yasmin Thayná, após o sensacional “KBELA“; “Noir Blue“, poético curta de Ana Pi; “Ilha“, dos baianos Ary Rosa e Glenda Nicácio que dirigiram o ótimo “Café com Canela”; “Chez Jolie Coiffure“, que mostra o trabalho de uma imigrante ilegal do Camarões que tem um salão de beleza na Bélgica; o clássico do new queer cinema, “Tongues Untied” de Marlon Riggs; os curtas experimentais do americano Kevin Jerome Everson e seu último longa “Tonsler Park“, ele que participou também dando um masterclass no MAM.

Falando no MAM, alguns dos filmes citados serão reprisados na cinemateca. É o caso de “Ilha” (01/11, 19h); “Nove Águas” (02/11, 15h); “Noir Blue” (03/11, 15h). Recomendo também a reexibição de “As Filhas do Vento“, com debate com o diretor Joel Zito Araújo e a atriz Lea Gardia, às 17h do sábado (02/11).

Outras dicas nos cinemas – Na sexta, 1, das 14h às 20h, tem sessão especial com debate com professores da área sobre três curtas de pacientes de saúde mental da Nise da Silveira dirigidos por uma das figuras principais do Cinema Novo: Leon Hirszman.

No circuito, de destaque, entram em cartaz o “Segredos Oficiais” comentado acima; outro que também estava na Mostra, o argelino “Papicha” (“obra verdadeiramente ambiciosa, feminista e humanista”, segundo Bruno Carmelo); o documentário sobre um dos primeiros diretores do Brasil, “Humberto Mauro“, realizador do “Ganga Bruta” que comentei na coluna passada; “A Cidade dos Piratas“, filme que mistura as animações do Otto Guerra e Laerte com a biografia do cartunista transexual; a escolha da Argentina para o Oscar “A Odisseia dos Tontos“, com Ricardo Darín; um novo “Exterminador do Futuro“; o remake em animação de “Família Addams“; e o documentário sobre a transformista Rogéria.

O maior festival de curtas do Rio, o Curta Cinema, tem início de 30/10 até 06/11 na Casa Firjan, Estação NET Botafogo e Cinemaison. Com entradas gratuitas e debates com realizadores, é uma oportunidade única de acompanhar o que se tem feito em curta-metragem por cineastas do Brasil e do mundo.

E em homenagem a Domingos Oliveira, a Cinemateca do MAM e a Caixa Cultural exibem seus filmes de 2 a 10 de novembro. A destacar: “Todas as Mulheres do Mundo”, em que Leila Diniz brilha, “Separações”, “Amores”, “BR-716” e “Edu, Coração de Ouro”. Mas nada de película, todas as exibições são em digital.

Brevíssimos frames – Novo do Martin Scorsese, a princípio anunciado exclusivo para a Netflix, vem aí também nos cinemas. O Cine Arte UFF já disse que exibe “The Irishman” a partir do dia 14 de novembro. Aproveitando, segue esse bate-papo adorável entre ele e Quentin Tarantino./// Carlos Albertos Mattos analisa a mostra Ocupação Eduardo Coutinho em São Paulo e seu livro Sete Faces de Eduardo Coutinho. Memória do nosso maior documentarista perpetuada./// E, para terminar e pressionar aqueles que ainda não viram “Bacurau” segue vídeo da abertura com “Não Identificado” da Gal Costa – e a pergunta: “tá esperando o quê?”:

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