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Escritas Libertárias


Angela Puppim

Fragmentos do Agorar – Coluna de Crônicas do Cotidiano

Por Angela Puppim – Economista e Escritora.

Sou escritora, poeta, já publiquei três livros, participei de várias antologias e assino esta coluna de crônicas mensais no Diário de Niterói.

Considero libertárias as minhas escritas, por serem fruto de meu processo criativo, de interiorização e de cura.  Não há o compromisso, a priori, com o valor estético, literário.  É uma escrita livre, como um pacto que visa a expressar meus sentimentos mais profundos; um deixar fluir, sem filtros ou críticas, um colocar para fora tudo aquilo que não quer calar, aquilo que transborda de meu interior — raiva, angústia, alegria, desejo, sonhos e utopias, tudo cabe no que escrevo. Concordo com Caio Fernando Abreu quando ele, sabiamente, diz que “escrever significa mexer com funduras”.

Iniciei o meu processo de escrita tardiamente, aos 64 anos de idade, quando vivi momentos de grandes perdas, de graves problemas de saúde, com sofrimentos físicos e emocionais. Todos esses acontecimentos me levaram a buscar uma terapia que me auxiliasse a superar essa fase de minha vida, pois, sozinha, sentia-me exaurida diante das adversidades que a vida me impunha.

O processo terapêutico a que recorri é denominado Biblioterapia, e se dá em encontros em que o profissional biblioterapeuta costuma facilitar o processo por meio da indicação de vasto acervo literário que dialoga com a experiência de vida apresentada pela/pelo paciente. Em síntese, pode-se dizer que a/o biblioterapeuta prescreve “doses de poesia” para tentar dar voz a uma dor que o/a paciente não encontra palavras para se expressar.

Os trechos de livros prescritos no processo terapêutico nominavam a minha dor, me faziam olhá-la, acolhê-la e ressignificá-la. Fragmentos do poema “Desenho”, de Cecília Meireles, por exemplo, foram vitais para mim, tornando-se até hoje essenciais à minha existência: “Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”.

Vivenciando tantos sofrimentos, encontrava-me cheia de cicatrizes internas e externas, e o contato com o verso desse poema me trouxe força e prontidão, tal qual a primavera em Cecília; me possibilitou a aceitação das podas a que a vida convoca e o retorno sempre renovado e inteiro.

Outra autora que dialogou com a minha dor foi Clarice Lispector, a partir do trecho do romance A Paixão Segundo GH:

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

Sempre fui uma mulher independente, feminista, e me sentia dona de meu corpo, era segura e consciente de minhas escolhas. Mas quando decidi me divorciar e pôr fim a um casamento de mais de quarenta anos, senti pânico, não sabia caminhar só. Isso me causava muita raiva e perplexidade. “Como uma mulher independente como eu podia ser tão dependente emocionalmente de um homem?” “Como sentir tanto a sua falta, a ponto de ficar paralisada e em pânico?”

Tinha muita raiva de mim, essa fragilidade me assustava e indignava. Mas ao ler Clarice Lispector, ao perceber que aquela G.H., personagem da narrativa, sentia falta de sua terceira perna que não lhe era mais essencial; ao constatar sua perplexidade diante do fato de que não conseguia caminhar com suas duas pernas apenas, tudo isso me permitiu ver que meus sentimentos eram legítimos, humanos, e que com o tempo eu voltaria, tal qual G.H., a caminhar firme e segura com minhas duas pernas.

Outro elemento importante para a superação daqueles momentos difíceis foi a constatação que eu não estava só. Uma rede de proteção de amigos — minhas várias tribos —, com orações, palavras de incentivo e companheirismo faziam-me crer que estava cercada de asas a amparar a minha queda.

Essa compreensão ficou clara para mim ao ler um trecho da carta de Caio de Fernando Abreu, em sua “Segunda Carta Para Além dos Muros”, publicada no livro Pequenas Epifanias:

Pois repito, aquilo que eu supunha fosse o caminho do inferno está juncado de anjos. Aquilo que suja treva parecia, guarda seu fio de luz. Nesse fio estreito, esticado feito corda bamba, nos equilibramos todos. Sombrinha erguida bem alto, pé ante pé, bailarinos destemidos do fim deste milênio pairando sobre o abismo. Lá embaixo, uma rede de asas ampara nossa queda.

Em paralelo às consultas individuais de Biblioterapia, em que as doses de poesias são prescritas, o processo é enriquecido com Círculos de Biblioterapia em grupo, uma vez por semana, onde o grupo presente é apresentado a um diversificado acervo literário e tem a oportunidade, através do debate de trechos dos livros, de avaliar-se sob a ótica individual e coletiva.

Além desse rico processo de diálogo consigo, com o outro e com a literatura, através da Biblioterapia, estimula-se nos participantes a prática da escrita, como um recurso adicional, para libertar sentimentos vividos durante a trajetória terapêutica, o que somente através da palavra não conseguiria expressar.

Todo o processo da Biblioterapia é um estímulo à escrita: “Tem angústia? Escreva.” “Está com muita raiva? Escreva sem críticas, sem filtros.” “Projete-se no futuro, saia desse lugar de dor: Escreva!!!”

Foi assim que o ato de escrever se tornou para mim uma das formas de organizar e reconhecer o que se passava comigo, deixando fluir, sem críticas e aceitação, tudo aquilo que brotava de dentro de mim. Eram os meus sentimentos expostos, sem filtros, para o papel e, mesmo quando não compreendidos, escrever sobre eles era dar-lhes algum sentido.

Eu não poderia ter feito melhor escolha! A Biblioterapia curou a minha dor; me projetou em devaneio; me fez sair daquele lugar de sofrimento; me levou a viagens interiores de autoconhecimento; me fez utilizar a escrita como um processo libertador, me fez escritora e poeta, uma Outra Mulher!

Cabe aqui um agradecimento especial à terapeuta Cristiana Seixas, que com grande sabedoria me facultou o acesso a esse inovador processo terapêutico (Cristiana é uma das precursoras da prática e da disseminação da Biblioterapia no Brasil).

Foi assim, carpindo a minha dor, que surgiu o meu primeiro livro, Escritas Libertárias, publicado em 2017, pela Cândido Editora, como o primeiro livro da “Coleção Biblioterapia”.[i]

Viver esses momentos de grandes transformações e escrever foi o meio que encontrei para externar o que estava sentindo. E isso foi libertador para mim. Daí o título do livro.

Este livro significou para mim o fechamento de um ciclo, daí a coragem de disponibilizá-lo para os leitores. Um genuíno ritual de passagem!

O sofrimento, quando transformado em aprendizado, dá novo sentido à nossa vida. É quando ele representa um renascimento, com mais sabedoria e força, para enfrentarmos as adversidades.

O livro, enfim, é uma celebração à Vida! Ao Renascimento! Espero que ele contribua para a compreensão de que a Vida é feita de morte e vida, de grandes momentos de alegria, de sofrimento e aprendizados! Um constante renascer! Viva a Vida! Viva!

O livro Escritas Libertárias, nunca é demais destacar, foi fruto desse rico processo terapêutico, pouco conhecido e praticado no Brasil, mas que já há muito é aplicado em outros países, inclusive nos Sistemas Públicos de Saúde, como forma de evitar a medicalização e levar a cura a muitos pacientes.

Hoje sou feliz e uma entusiasta da Biblioterapia. Publiquei mais dois livros, Trem das Flores[ii] e A (mar)[iii], estes dedicados ao público infantojuvenil.

Recomendo a Biblioterapia para os que necessitam de ajuda e querem percorrer o caminho do autoconhecimento e da transformação pessoal. Sua prática é um ato libertador.


[i] O livro Escritas Libertárias pode ser adquirido no link http://www.edicoescandido.com/escritas-libertarias

[ii] O livro Trem das Flores pode ser adquirido com a autora através do e-mail angelapuppim65@gmail.com

[iii] O livro A (mar) pode ser adquirido no link http://www.edicoescandido.com/amar

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