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EstreLindas



Angela Puppim


Fragmentos do Agorar – Crônicas do Cotidiano

Angela Puppim – Escritora


Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?

E eu vos direi: Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

Olavo Bilac, Via Láctea – “Soneto XIII”

Sou moradora da Rua das Estrelas, e como poeta tenho uma relação de grande familiaridade com minha rua. Gosto de perder-me andarilhando por suas esquinas em devaneios noturnos: percorro a sua Via Láctea, encontro-me com as Três Marias, flerto com Júpiter e fico perdida na encruzilhada do Cruzeiro do Sul.

Considero, assim, que a Rua das Estrelas é um desses lugares das confluências, onde nem precisamos procurar por nada, pois algum encontro iluminado sempre acontece.

É exatamente nessa rua que um coletivo de mulheres denominado Escrevinhar na Rua das Estrelas vem se encontrando quinzenalmente, há quatro anos, para ouvir estrelas e produzir escritas de si e do mundo. Não é por acaso que elas se reconhecem e se autointitulam, carinhosamente, de EstreLindas!

Esse lugar de encontros para ouvir estrelas, falar, escrever e acolher o outro possibilita o desarmar do medo, da insegurança, da timidez, faculta uma libertação do eu, da escrita de si, permite o despojar-se de máscaras e defesas, numa exponencial crescente de criações literárias e poéticas.

O fazer poético – luminoso e coletivo – provoca nas EstreLindas o esperançar utopias. Todas as exterioridades e complexidades do mundo as afetam e convidam ao gesto libertário da escrita, conforme nos ensinou o mestre Paulo Freire.

Os discursos de ódio, de intolerância, de opressão com os quais nos deparamos hoje não estão alheios às suas escritas. A narrativa literária é também dialógica, “é prenhe de resposta”, ativa, sem apagamento das vozes, como nos aponta o filósofo Bakhtin. Se cabe às EstreLindas uma resistência a tudo isso, uma resposta, respondem escrevinhando. Como nos diz o poeta Bartolomeu Campos de Queirós:

As palavras podem abrir feridas, mas também cicatrizam as chagas. A palavra não sangra, a palavra cura. A palavra liberta a dor. E quando escrita, a dor nos pacífica. A palavra é flor fechada quando dentro de nós. Escrever é deixar a flor se abrir.

Para as EstreLindas, o escrevinhar na Rua das Estrelas é uma possibilidade de outrar-se, e, inspiradas em Fernando Pessoa, aceitam o desafio e a possibilidade de se desdobrarem em sucessivas identidades, deixam-se contagiar pelo sentido do novo e do diferente, se transmutam em estrelas, como uma nova forma de ser e estar no mundo, de sentir a vida e de iluminar sonhos e esperançar utopias.

São utópicas as EstreLindas? Afirmo que sim! As utopias as fazem caminhar, a se encontrarem nessa jornada na Rua das Estrelas, onde o real e a fantasia se misturam e se separam. E, assim, se nutrem e resistem apoiadas— nas estrelas, no coletivo, nas escritas, nas lutas, nos sonhos e esperanças, porque acreditam que “outro mundo é possível”.

Encerro esta crônica com um poema do Coletivo Escrevinhar na Rua das Estrelas, do qual faço parte.

Estrelaçando

 
Fábrica de Escrevinhar
Rua das Estrelas n.º 28
Local onde as Estrelindas
produzem palavras fiadas a múltiplas mãos
Remendam palavras cadentes que sofrem por amores perdidos

Cerzideiras de palavras não ditas e aprisionadas em cativeiro de dor
Operárias unem minúsculas palavras estrelares
Formam o sonhar e as utopias em Via-Láctea
Num firmamento de dor
Tecem palavras que guiam e iluminam a escuridão

Estrelaçando vontades
Surgidas sem intenção
Nascidas entre tantas
Mulheres pensantes
Que em voo só
Aterrissam em estradas
Nunca antes viajadas

Na sala concreta
Da rua sonhada
Mulheres reais gestam estrelas
E tecem ninhos
Com tramas de luz
Para aconchegar escritas de si

Em tempos sombrios
De terra arruinada
E homens toscos
Uma nesga de luz
Desvela a alma feminina
Estrelinhando palavras
Na alquimia poética
Da Rua das Estrelas

Uma noite estrelada
Cruzeiro do Sul, Vênus
Três Marias, Via Láctea
Contemplação de corpos distantes
Viagens de mil anos-luz
Mas
E se as estrelas forem cada uma de nós?
Aqui na Terra...
A essência nos moldando
A vida constituindo nossa voz

Era uma rua meio apagada
Cheia de Barros, a tal Mariz
Não encantava a passarada
Seu entardecer assim tão gris

Lá no vinte e oito surge um dia
A Dona Angel, Pum pim feliz
Convoca brilhos com ousadia
Bailam estrelas com colibris

Mulheres em flor iluminam os fios da linha
Vida escrevinham ao sabor da luz
Já estrelada a ruazinha
Constelação nova agora reluz.	

Poesia publicada pelo Coletivo Escrevinhar na Rua das Estrelas na Antologia Vicejantes, organizada por Cristiana Seixas (SEIXAS, 2018) – Edições Cândido.http://www.edicoescandido.com/loja/busca.php?loja=827706&palavra_busca=vicejante

Para conhecerem melhor o Coletivo Escrevinhar na Rua das Estrelas, sua história e seu fazer literário, sugiro a leitura do trabalho por elas apresentado no Simpósio Internacional de Língua Portuguesa, em Porto de Galinhas, PE, em 2019, acessando o link:

http://sites-mitte.com.br/anais/simelp/busca_2.htm?query=Inez+munhoz

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