Viver a vida x Registrar a vida
no Colégio Paulo Freire
Há tempos venho percebendo que momentos de contemplação e de experienciação foram atravessados pela presença das telas. O que antes eram olhares brilhantes direcionados a um show, por exemplo, hoje, são os olhares que chegam por uma câmera do celular. O que antes eram refeições partilhadas com amigos e família em que todos conversavam animadamente, hoje são registros fotográficos obrigatórios dessas mesmas refeições antes mesmo de serem saboreadas, a viagem é pensada pela imagem que renderá, o encontro se interrompe pela notificação. Assim, pouco a pouco, estamos correndo o risco de trocar a intensidade do viver pela urgência de documentar o que vivemos de fat.
Podemos afirmar, então, que estamos imersos em uma sociedade que tem escolhido preocupar-se mais com os registros do que propriamente com a experiência e, nesse sentido, observamos mudanças que impactam muito a forma como nos relacionamos com a vida: a fotografia vem antes da memória e o instante parece só adquirir valor quando compartilhado. Em vez de presença, ausência; em vez de experiência, registro. Surge aqui uma questão: estamos vivendo a vida ou apenas produzindo provas de como estamos vivendo essa vida?
Trazemos aqui uma perspectiva interessante do filósofo e sociólogo britânico Zygmunt Bauman que foi o autor do conceito “modernidade líquida”, tal conceito expressa que estamos vivendo, na contemporaneidade, tempos de instabilidade e volatilidade. Bauman nos ajuda a refletir que hoje tudo parece passageiro, as relações, as experiências, os desejos e até as identidades. Temos uma necessidade constante de validação para pertencer. Portanto, registrar a vida, nesse contexto, deixou de ser apenas memória para passar a ser uma espécie de confirmação social da própria existência.
Nesse cenário, o excesso de telas modifica nossa forma de experienciar o mundo, pois o que antes servia para preservar lembranças significativas converteu-se em uma prática compulsiva e, muitas vezes, vazia de registrá-la. Além disso, a lógica das telas reforça aquilo que Bauman aponta como fragilidade das relações humanas. Em vez de conexões profundas, cultivam-se contatos rápidos, “likes”, comentários breves e presenças digitais que nem sempre correspondem à convivência real. O compartilhamento constante da vida pode criar uma sensação de proximidade, mas também intensificar a solidão, pois a aparência de conexão nem sempre significa encontro genuíno.
É claro que não estamos com isso demonizando a tecnologia ou negando a importância dos registros. O que estamos tentando dizer é que esses mesmos registros não devem substituir a experiência. Viver a vida não pode se reduzir apenas às curtidas, às validações alheias. Talvez o grande desafio seja reaprender a equilibrar presença e memória, experiência e registros. Viver plenamente exige momentos em que o olhar esteja entregue ao instante, à conversa, ao silêncio, aos encontros e às emoções sem a urgência de registrar por imagem tudo isso o tempo todo. Em uma sociedade líquida, onde tudo parece escapar rapidamente, talvez resistir seja justamente viver a vida.
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