UFF Responde: Alfabetização no século XXI
O que significa ser alfabetizado no século XXI? Durante muito tempo, habilidades como ler uma frase, escrever um bilhete ou compreender um texto estiveram no centro do que se entende por alfabetização. Elas continuam fundamentais, mas o mundo mudou. Hoje, uma mesma informação pode chegar por uma notícia, uma mensagem de WhatsApp, um vídeo, uma imagem, um gráfico ou uma resposta produzida por inteligência artificial, muitas vezes tudo isso atravessado por plataformas e algoritmos que também interferem na percepção da realidade.
Nesse cenário, saber decodificar palavras é apenas parte de um conjunto cada vez mais amplo de competências necessárias para participar da vida social. Ideias como letramento digital, midiático e informacional passaram a integrar o debate sobre a formação de leitores capazes não apenas de acessar conteúdos, mas de interpretá-los, relacioná-los, avaliar a confiabilidade e também produzir informação de maneira crítica.
Em setembro, mês em que é celebrado o Dia Internacional da Alfabetização, o UFF Responde convida para discutir o que mudou e o que continua essencial, participam desta edição os docentes Ivo da Costa do Rosário, de Língua Portuguesa do Instituto de Letras da UFF; Cíntia Regina Lacerda Rabello, do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas; e Thaiane Moreira de Oliveira, do Departamento de Estudos Culturais e Mídia.
Muito além de ler e escrever
Quando falamos em uma pessoa alfabetizada hoje, saber ler e escrever ainda é suficiente? O que significa, de fato, dominar a leitura e a escrita no século XXI?
Ivo da Costa do Rosário: Saber ler e escrever continua sendo absolutamente fundamental. A questão é o que entendemos hoje por “saber ler e escrever”. Se pensarmos apenas na capacidade de decodificar palavras ou de registrar frases, certamente não é suficiente. Alfabetizar significa possibilitar que o sujeito participe efetivamente das práticas sociais de linguagem, compreenda textos, produza sentidos, expresse suas ideias e exerça autoria.
Essa questão ganha ainda mais importância no século XXI porque os textos com os quais convivemos se tornaram cada vez mais multimodais. Nós lemos palavras, mas também imagens, gráficos, vídeos, hiperlinks, memes, postagens em redes sociais e diferentes combinações de linguagem verbal, visual e sonora. Portanto, formar um leitor hoje significa também desenvolver sua capacidade de transitar por diferentes linguagens, suportes e espaços de circulação, compreendendo como cada um deles participa da construção dos sentidos.
Mas talvez o ponto central seja este: ser alfabetizado no século XXI significa ser capaz de se posicionar diante daquilo que se lê. Em uma sociedade marcada pela circulação acelerada de informações e pelas tecnologias digitais, não basta ter acesso à informação; é necessário interpretá-la, confrontá-la, avaliar sua confiabilidade, reconhecer diferentes pontos de vista e produzir uma resposta própria. Em outras palavras, precisamos formar sujeitos que sejam capazes não apenas de “ler a palavra”, mas também, recuperando Paulo Freire, de “ler o mundo”, produzir sentidos e participar criticamente da vida social.
Hoje lemos e escrevemos em diferentes suportes e linguagens, dos livros às plataformas digitais. Como essas transformações ajudam a compreender a diferença entre alfabetização e letramento no século XXI?
Cíntia Regina Lacerda Rabello: Acredito que mudou o que significa ser letrado, pois, quando nos referimos às práticas sociais de leitura e escrita, geralmente nos referimos a práticas de letramento. Segundo a linguista Magda Soares, o termo alfabetização está relacionado à habilidade de codificar em língua escrita, ou seja, a pessoa alfabetizada é aquela que aprendeu a ler e a escrever. Já o letramento é um termo relativamente novo no campo da Educação e da Linguística, que surge para designar justamente a capacidade de se apropriar da leitura e da escrita para práticas sociais.
Nesse sentido, conforme mudam os suportes de leitura e escrita, principalmente em decorrência dos avanços tecnológicos e da emergência da cibercultura, ou cultura digital, são necessárias novas competências. As transformações nas práticas de leitura e escrita na sociedade contemporânea demandam diferentes letramentos. Assim, compreendo que, mais do que ser alfabetizado nos dias de hoje, é necessário diferentes linguagens (escrita, oral, visual, tátil etc.) e suportes, sejam eles analógicos ou digitais.
É comum vermos crianças e jovens que utilizam celulares, aplicativos e redes sociais com enorme facilidade. Saber operar essas tecnologias significa possuir letramento digital? O que diferencia uma coisa da outra?
Cíntia Regina Lacerda Rabello: É uma confusão que começou, em grande parte, com a noção de “nativos digitais”, difundida por Marc Prensky para definir crianças e jovens que nasceram em um mundo imerso em tecnologias digitais. Segundo a concepção, os nativos digitais teriam uma fluência com as tecnologias semelhante à de um “falante nativo” de uma língua, enquanto pessoas que cresceram sem o contato intenso com as tecnologias seriam consideradas “imigrantes digitais”, ou seja, teriam mais dificuldade em lidar com os avanços, mantendo um “sotaque” analógico.
Livros, computadores, tablets, vídeos, imagens e outras linguagens convivem nas práticas contemporâneas de leitura e escrita, ampliando as competências necessárias à formação de leitores. Foto: Freepik
Hoje, esse termo é bastante debatido e criticado, pois não basta simplesmente ter acesso às tecnologias para utilizá-las de forma eficaz e crítica. Para isso, é necessário desenvolver os letramentos digitais, no plural. Mais do que um conhecimento operacional em relação ao uso das tecnologias, como saber manusear e utilizar diferentes funções e aplicativos, por exemplo, é necessário saber fazer um uso crítico em diferentes práticas sociais mediadas por elas. E não é uma habilidade inata, como muitos acreditam, das novas gerações. Os letramentos digitais precisam ser trabalhados e desenvolvidos no contexto escolar, de forma a garantir uma melhor utilização dos aparatos tecnológicos na sociedade contemporânea.
Ler os caminhos da informação
Nunca tivemos acesso a tanta informação quanto hoje. Mas ter acesso significa estar preparado para compreendê-la? O que caracteriza uma pessoa alfabetizada do ponto de vista midiático e informacional?
Thaiane Moreira de Oliveira: Ter acesso à informação é uma condição importante, um direito que deveria ser universal, mas está muito longe de significar que uma pessoa esteja preparada para compreendê-la. Na verdade, talvez um dos grandes desafios contemporâneos seja justamente distinguir acesso à informação de capacidade de entender os mecanismos existentes na circulação e como produzir sentido sobre a informação.
Ser alfabetizado midiática e informacionalmente significa desenvolver a capacidade de compreender que toda informação é produzida em determinadas condições, atores, interesses e disputas. Não se trata apenas de capacitar uma pessoa para ler uma notícia, mas de entender: quem produziu essa informação? Com que finalidade? A partir de quais fontes? O que está sendo dito, mas também o que está sendo silenciado? Por que e como esse conteúdo chegou até mim?
E há uma dimensão que considero fundamental: a alfabetização hoje não pode ser pensada apenas como uma competência individual. A pessoa pode ter excelentes habilidades de leitura e, ainda assim, estar inserida em ambientes informacionais extremamente assimétricos, nos quais plataformas, algoritmos e grandes empresas têm enorme poder de definir o que ganha visibilidade.
Por isso, falar em alfabetização midiática é também falar em autonomia, poder e soberania informacional. É permitir que as pessoas não sejam apenas consumidoras de informação, mas tenham condições de compreender e disputar os próprios ambientes em que o conhecimento circula.
Ler criticamente no ambiente digital também significa compreender como plataformas, algoritmos e relações de poder interferem na circulação e na visibilidade das informações. Foto: Freepik
Diante de redes sociais, influenciadores, mecanismos de busca, algoritmos e conteúdos produzidos por inteligência artificial, quais competências precisamos desenvolver para avaliar se uma informação é confiável?
Thaiane Moreira de Oliveira: Precisamos, primeiro, superar a ideia de que existe uma espécie de “detector humano de fake news”. A avaliação da informação exige um conjunto de competências.
É preciso saber verificar fontes, comparar informações, identificar evidências, reconhecer diferentes perspectivas e compreender como determinados conteúdos são construídos. Essas são competências que foram aprimoradas ao longo dos últimos anos, mas que já não são suficientes para compreender os modos de circulação informacional, em especial no ambiente digital. Precisamos também compreender como funcionam as plataformas e os algoritmos que selecionam aquilo que vemos.
Uma informação pode ser verdadeira e, ainda assim, estar sendo apresentada de maneira descontextualizada, ou ser impulsionada pelas próprias plataformas digitais justamente porque gera mais engajamento, mais visualização e, com isso, mais lucro para essas empresas digitais.
Com a inteligência artificial, isso se torna ainda mais complexo. Precisamos desenvolver, portanto, uma ampliação da noção de letramento midiático e informacional para compreender os mecanismos algorítmicos e de IA, partindo de um entendimento de que esses sistemas informacionais não são neutros, que produzem respostas a partir de dados, modelos e escolhas humanas e que podem reproduzir vieses e fabricar conteúdos com aparência de autoridade.
Talvez a pergunta não seja apenas “isso é verdadeiro ou falso, é confiável ou não?”, mas, sobretudo: “por que estou vendo isso, quem ganha com essa circulação e quais condições tornaram possível que essa informação chegasse até mim dessa maneira?”
Novas tecnologias, novos letramentos
Com a chegada da inteligência artificial generativa, máquinas passaram também a produzir textos, imagens e outros conteúdos. Que novas competências isso exige de quem aprende a ler e escrever hoje?
Cíntia Regina Lacerda Rabello: Seguindo a perspectiva dos multiletramentos, o advento e a rápida difusão e evolução da inteligência artificial (IA) Generativa, como ChatGPT, Gemini, Copilot, DeepSeek, Claude, entre outros, demandam novas habilidades para o uso eficaz e crítico dessas tecnologias. Não basta apenas saber usá-las para criar textos, imagens e todo tipo de conteúdo digital. Precisamos fazer isso de forma responsável, entendendo implicações sociais, ambientais e éticas, responsabilidades relacionadas à autoria e ao plágio e relações de poder, controle e opressão, como viés algorítmico e colonialismo de dados e linguístico, entre outros. Assim, o letramento crítico em IA ou IAG é defendido como uma habilidade essencial e que deve ser integrada ao currículo escolar, juntamente com a educação digital.
O letramento em IAG inclui, assim, dimensões técnicas, éticas e críticas que permitem que os indivíduos não apenas usem, mas entendam como essas tecnologias funcionam, avaliem e questionem os resultados oferecidos, reconheçam suas limitações e implicações e façam um uso ético e responsável. Além disso, com a proliferação de conteúdos gerados por IA nos ambientes digitais, é fundamental saber identificar o que é real e o que é deepfake — conteúdos modificados e/ou gerados por inteligência artificial que passam uma falsa impressão de realidade — para não sermos vítimas de golpes e fraudes, acreditarmos em fake news ou mesmo consumirmos conteúdos gerados por IA acriticamente.
O que continua fundamental
Diante de tantas novas competências exigidas hoje, existe o risco de perdermos de vista aquilo que continua fundamental? Que habilidades de leitura e escrita permanecem indispensáveis, independentemente da tecnologia?
Ivo da Costa do Rosário: Às vezes, o fascínio pela novidade tecnológica pode causar a impressão de que tudo o que fizemos anteriormente perdeu importância. Não perdeu. As tecnologias modificam os suportes, criam novos gêneros e alteram as formas de produção e circulação dos textos, mas continuam sendo indispensáveis competências como compreender profundamente o que se lê, estabelecer relações entre informações, realizar inferências, perceber implícitos, ampliar o vocabulário e construir uma interpretação coerente. A tecnologia amplia as possibilidades de leitura; ela não elimina a necessidade de saber ler.
Isso também vale naturalmente para a escrita. Independentemente de escrevermos no papel, no computador ou em um telefone, continuamos precisando organizar ideias, selecionar informações, estabelecer relações de coerência e coesão, adequar a linguagem aos interlocutores e às finalidades do texto e revisar o que escrevemos. Além de assumir responsabilidade pelo que dizemos. Por isso, considero particularmente importante a ideia de autoria.
Talvez o grande desafio da educação no século XXI seja, portanto, equilibrar permanência e transformação. Precisamos incorporar criticamente as novas linguagens e tecnologias, mas sem abandonar aquilo que constitui a base da formação de um leitor: compreensão, interpretação, reflexão, argumentação e autoria. Quanto maior for a quantidade de informações produzidas e disponibilizadas pelas tecnologias, inclusive pela inteligência artificial, maior será a necessidade de formar sujeitos capazes de perguntar de onde vem uma informação, quem a produziu, com que finalidade e com que evidências. A tecnologia muda; a necessidade de formar leitores autônomos, críticos e capazes de produzir sentidos permanece.
___________________________________________________
Ivo da Costa do Rosário é professor associado de Língua Portuguesa da UFF e docente do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem, do qual foi coordenador entre 2022 e 2026. É doutor em Letras pela UFF e em Letras Vernáculas pela UFRJ, com pós-doutorado em Estudos da Linguagem pela UFRN. Bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq, atua principalmente nas áreas de funcionalismo, morfossintaxe, construcionalização, conexão de cláusulas e conectivos. É líder do Grupo de Pesquisa Conectivos e Conexão de Orações (CCO) e integra o Grupo de Estudos Discurso e Gramática da UFF.
Cíntia Regina Lacerda Rabello é professora do Instituto de Letras da UFF e docente do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem. Doutora em Linguística Aplicada pela UFRJ, atua principalmente nas áreas de ensino de línguas, formação de professores, tecnologias digitais em educação, letramentos digitais, multiletramentos e letramento em Inteligência Artificial. Coordena o Laboratório de Formação de Professores de Línguas e Tecnologias Digitais da UFF e lidera o Grupo de Estudos em Tecnologias no Ensino e Aprendizagem de Línguas (GETEAL).
Thaiane Moreira de Oliveira é professora e pesquisadora do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da UFF, doutora em Comunicação e coordenadora do Laboratório de Investigação em Ciência, Inovação, Tecnologia e Educação (Cite-Lab). Integra diferentes redes e institutos nacionais e internacionais de pesquisa, entre eles os INCTs de Disputas e Soberania Informacional, Administração de Conflitos e Comunicação Pública da Ciência, além da Cátedra Unesco de Multilinguismo. É fundadora da Rede Latmetrics e membro da Academia Brasileira de Ciências. Suas pesquisas se concentram em desinformação científica, disputas informacionais e epistêmicas, comunicação científica, educação científica e políticas de circulação e avaliação do conhecimento.
Por Fernanda Nunes
Quer enviar uma queixa ou denúncia, ou conteúdo de interesse coletivo, escreva para noticia@diariodeniteroi.com.br ou utilize um dos canais do menu "Contatos".