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Pesquisa da UFF verifica que quase metade das crianças expostas à tuberculose não completa acompanhamento


Quase metade das crianças e adolescentes acompanhados em uma pesquisa sobre infecção latente por tuberculose não completaram o seguimento previsto. Dos 90 participantes do estudo, realizado em Itaboraí, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, 44 perderam o acompanhamento, o equivalente a 48,9% do grupo. A pobreza foi identificada como a principal barreira para a continuidade do cuidado, e a baixa escolaridade dos responsáveis também esteve associada à perda de seguimento.

Os resultados fazem parte de um estudo desenvolvido no contexto do mestrado de Ana Paula Pereira Guerra Franco, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Programa Municipal de Controle da Tuberculose de Itaboraí. A pesquisa foi orientada pela professora Claudete Aparecida Araújo Cardoso, infectologista pediátrica, e resultou no artigo Latent tuberculosis in childhood and adolescence: assessment of barriers to diagnosis and treatment in a resource-limited area of Brazil, publicado em 2026 no periódico científico Journal of Tropical Pediatrics.

A pesquisa acompanhou crianças e adolescentes de até 15 anos que conviviam no domicílio com adultos diagnosticados com tuberculose pulmonar. O objetivo foi identificar em quais etapas do cuidado os pacientes encontravam dificuldades para chegar ao fim do acompanhamento, desde a identificação da infecção até a realização dos procedimentos necessários e o tratamento preventivo.

Prevenir antes que a doença se manifeste

A infecção latente por tuberculose ocorre quando a pessoa está infectada pela bactéria, mas não apresenta sintomas nem transmite a doença. O tratamento preventivo reduz o risco de evolução para a forma ativa da doença. A investigação dos contatos de pessoas diagnosticadas com tuberculose pulmonar é especialmente importante entre crianças, mais vulneráveis ao desenvolvimento de formas graves da doença.

O teste tuberculínico é um dos métodos utilizados na investigação da infecção latente por tuberculose. Foto: Greg Knobloch/CDC/PHIL, via Wikimedia Commons.

Para Ana Paula Pereira Guerra Franco, mestre responsável pelo estudo, a perda de seguimento não pode ser compreendida apenas como uma dificuldade individual das famílias. Os resultados apontam para um conjunto de obstáculos socioeconômicos, educacionais, familiares e relacionados à própria organização dos serviços de saúde. “A alta taxa de perda de seguimento revela que existem múltiplas barreiras que dificultam a efetividade das ações de controle da tuberculose em crianças e adolescentes”, explica a pesquisadora.

Entre os problemas identificados estão a baixa renda familiar, a perda de renda agravada pela pandemia de Covid-19, as dificuldades de transporte, a demora no agendamento de exames e a insuficiência de visitas domiciliares. A pesquisadora também chama atenção para a baixa escolaridade dos cuidadores, associada estatisticamente à maior perda de seguimento. Como a infecção latente não apresenta sintomas, a compreensão da necessidade do tratamento preventivo pode ser um desafio adicional.

Para a professora Claudete, identificar a infecção latente e oferecer o tratamento são etapas essenciais, mas não suficientes para garantir a conclusão do cuidado. Ela chama atenção para o fato de que a redução do tempo dos esquemas preventivos precisa ser acompanhada de condições que permitam às famílias acessar e manter o acompanhamento. “Não é suficiente termos uma redução de tratamento de 180 para 12 doses, se o paciente não consegue realizar o acompanhamento adequado”, afirma.

Pobreza e escolaridade influenciam a continuidade do cuidado

Na análise dos dados, as famílias com menor renda tiveram mais dificuldade para percorrer todas as etapas do acompanhamento. A baixa escolaridade do cuidador também esteve associada à perda de seguimento. 

Segundo a professora Claudete, os achados reforçam a necessidade de considerar as condições de vida das famílias no planejamento das ações de saúde. “As famílias com menos renda tinham uma chance menor de percorrer a cascata de cuidado até o final”, explica, referindo-se ao percurso que começa na identificação da infecção e envolve as etapas necessárias para completar o cuidado.

A especialista destaca que o enfrentamento do problema exige tanto a atuação dos profissionais de saúde quanto medidas capazes de reduzir as desigualdades sociais. “Nós precisamos estar mais próximos das famílias para melhorar a adesão, garantir transferência de renda e garantir educação”, afirma.

A atuação dos agentes comunitários de saúde pode aproximar os serviços públicos das famílias e contribuir para a continuidade do cuidado. Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília, de 2023.

Nesse processo, a atenção primária à saúde e os agentes comunitários podem contribuir para aproximar os serviços da população, acompanhar as famílias e identificar dificuldades que comprometam a continuidade do cuidado. Para a professora, o acesso à informação precisa vir acompanhado de condições concretas para que as pessoas consigam seguir as orientações e comparecer às consultas.

Na avaliação de Ana Paula, é fundamental atuar sobre os determinantes sociais, investir em educação em saúde, fortalecer a estrutura familiar e aprimorar a organização dos serviços de saúde. Entre as medidas sugeridas pela pesquisadora estão a oferta de auxílio-transporte e, quando possível, alimentação para as famílias, além de estratégias de busca ativa por telefone, mensagens e visitas domiciliares. Ela também defende o acompanhamento individualizado, considerando as condições e dificuldades de cada núcleo familiar, e a produção de materiais educativos em linguagem acessível.

Os resultados da pesquisa foram apresentados a gestores municipais de Itaboraí, com o objetivo de contribuir para a discussão sobre as fragilidades do acompanhamento e as possibilidades de aprimorar as ações de prevenção da tuberculose. “Globalmente, é importante garantirmos alimentação, renda e educação. Sem isso, nós continuaremos tratando a doença, ao invés de tratar a infecção para prevenir o desenvolvimento da doença”, conclui a pesquisadora.

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Claudete Aparecida Araújo Cardoso é médica pela Universidade Federal de Minas Gerais (1991-1996), residência médica em Pediatria e Infectologia Pediátrica pela Universidade Federal de Minas Gerais (1997-2000), mestrado e doutorado em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Minas Gerais (2001-2006) e pós-doutorado na School of Public Health at University of California, Berkeley (2013-2014). Atualmente é Professora Associada IV do Departamento Materno-Infantil da Universidade Federal Fluminense e orientadora do Programa de Pós-graduação em Ciências Médicas da Universidade Federal Fluminense. É membro da REDE-TB desde 2017, atuando na área pediátrica. É consultora em Tuberculose pediátrica do Ministério da Saúde desde maio de 2019. Atua como docente do curso de graduação em Medicina da UFF desde novembro de 2008, atuando como Coordenadora do Curso de Medicina da Universidade Federal Fluminense desde 2021. Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Infectologia Pediátrica, atuando principalmente nos seguintes temas: tuberculose e doenças exantemáticas, com ênfase em infecção pelo vírus Zika em crianças.

Ana Paula Pereira Guerra Franco é médica pela Faculdade Técnico Educacional Souza Marques (1987-1992), residência médica em Pediatria pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (1993-1995), residência médica em Terapia Intensiva Pediátrica pelo Instituto Fernandes Figueira – FIOCRUZ (1995-1996), pós-graduação latu sensu em Terapia Intensiva Pediátrica pelo Instituto Fernandes Figueira – FIOCRUZ (1996-1997), especialização em Executivo em Saúde pela Fundação Getúlio Vargas (2011-2013), Mestrado em Ciências Médicas da Universidade Federal Fluminense (2020-2022). Atualmente atua como docente em Pediatria do Curso de graduação em Medicina da Universidade Estácio de Sá (UNESA), com ênfase no Internato Médico, desde  setembro de 2024. Atua como Rotina Pediátrica no Hospital Municipalizado Adão Pereira Nunes (HMAPN) desde 2020. Atua como preceptora da Especialização e da Residência Médica em Pediatria do HMAPN desde junho de 2024. Atuação profissional em consultório particular na área de Pediatria desde 2017.Tem experiência na área de Medicina com ênfase em Tuberculose pediátrica, Rotina de Pediatria Clínica e Intensiva Pediátrica (1997) e docência.

 

Por Fernanda Nunes


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