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Kit de baixo custo criado na UFF transforma imagens simples em tecnologia de rastreio precoce do autismo


Em meio às ações do Abril Azul, campanha dedicada à conscientização sobre o autismo, uma tecnologia desenvolvida na Universidade Federal Fluminense (UFF) teve sua patente concedida. Desenvolvido pela doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências e Biotecnologia Gisele Soares Rodrigues do Nascimento e orientado pelos docentes Diana Negrão, Cristina Delou e Sérgio Crespo, o kit de baixo custo propõe identificar sinais precoces do transtorno em bebês a partir da interação com estímulos visuais e ampliar as possibilidades de triagem nos primeiros meses de vida.

A proposta do kit se destaca por traduzir uma abordagem com alta complexidade técnica em uma solução operacional simples, acessível e potencialmente replicável. Em vez de depender de tecnologias de alto custo, como sistemas digitais de rastreamento ocular, o instrumento utiliza imagens estáticas e a interação direta do bebê com estímulos visuais e táteis, permitindo observar padrões de atenção e resposta a elementos sociais e não sociais. A escolha metodológica amplia significativamente o alcance da triagem, especialmente em contextos em que o acesso à tecnologias avançadas ainda é limitado.

Segundo Gisele Nascimento, pesquisadora responsável pelo desenvolvimento do dispositivo, o kit foi concebido para atuar em uma fase crítica do desenvolvimento infantil, entre os 4 e 18 meses de idade, período em que sinais iniciais do autismo podem ser identificados com maior impacto para intervenções futuras. “O diagnóstico auxilia na identificação precoce de autismo em lactentes, analisando a interação social por meio de imagens coloridas estáticas pré-selecionadas”, explica. Na prática, o bebê é convidado a interagir com diferentes imagens, e sua escolha e padrão de atenção são analisados como indicadores do desenvolvimento da cognição social.

Figuras utilizadas no kit para auxílio diagnóstico do TEA em bebês. Fonte: Carta patente/Gisele Nascimento.

O funcionamento do instrumento se apoia na integração entre percepção sensorial e comportamento e permite uma leitura mais ampla da forma como o lactente responde a estímulos do ambiente. “O instrumento analisa o déficit de interação social por meio do sistema sensitivo da visão e do tato, bem como as respostas aos estímulos extracelulares”, detalha a pesquisadora. Ao considerar a repetição desses comportamentos ao longo de diferentes estímulos, o kit possibilita uma análise mais consistente do padrão de interação da criança, aproximando-se de uma avaliação processual do desenvolvimento.

Para a professora Diana Negrão, o principal mérito da inovação está na capacidade de simplificar um modelo teórico sofisticado sem perder a consistência científica, tornando-o aplicável à realidade brasileira. Segundo ela, essa adaptação torna o instrumento relevante em um cenário em que o acesso ao diagnóstico precoce ainda representa um desafio para muitas famílias.

Nesse sentido, o kit deve ser compreendido como uma ferramenta de triagem, e não de diagnóstico clínico. Sua principal função é indicar, de forma inicial, quais crianças podem apresentar sinais de risco e devem ser encaminhadas para avaliação especializada. “O instrumento não é para diagnóstico médico. Ele ajuda a identificar quem precisa ser encaminhado para uma avaliação mais aprofundada”, explica Diana.

Figuras utilizadas no kit para auxílio diagnóstico do TEA em bebês. Fonte: Carta patente/Gisele Nascimento.

A proposta também dialoga com a necessidade crescente de implementação de protocolos de avaliação do desenvolvimento infantil nos primeiros meses de vida, especialmente diante do aumento dos casos diagnosticados de autismo. “Tal instrumento é importante devido ao crescimento dos casos de autismo e à necessidade de diagnóstico precoce por meio de protocolos em lactentes”, destaca Gisele. 

Outro aspecto relevante é a possibilidade de uso em contextos educacionais e terapêuticos, como meio de ampliar o alcance da triagem para além do ambiente clínico. A identificação precoce de dificuldades de interação social pode orientar intervenções mais adequadas desde os primeiros anos de vida e contribuir para o desenvolvimento da criança independentemente da formalização de um diagnóstico.

Figuras utilizadas no kit para auxílio diagnóstico do TEA em bebês. Fonte: Carta patente/Gisele Nascimento.

Com a concessão da patente, o projeto entra agora em uma nova fase voltada à produção de evidências quantitativas, etapa fundamental para consolidar o instrumento como referência na área e ampliar sua adoção em diferentes contextos. “Um dos próximos passos é realizar testes com crianças e publicar a validação”, afirma Gisele.

E-book reúne debates do 6º Simpósio sobre Autismo da UFF

Além do avanço representado pela concessão da patente, a universidade também amplia a difusão de conhecimento sobre o autismo com o lançamento do e-book que reúne os conteúdos apresentados no 6º Simpósio sobre Autismo da UFF (SAUFF), realizado em 2025.

De acordo com a professora Diana Negrão, atual docente do Programa de Pós-graduação em Ciência, Tecnologia e Inclusão da UFF (PGCTIn-UFF), o evento, criado em 2017, tem como objetivo reunir e compartilhar as informações mais atualizadas sobre o tema, integrando produção acadêmica, prática profissional e acesso público ao conhecimento. Pela primeira vez, a sexta edição foi realizada fora do eixo metropolitano do Rio de Janeiro e levada para Nova Friburgo, onde reuniu especialistas para atualização clínica e científica.

O e-book sistematiza os principais conteúdos discutidos no simpósio: palestras e trabalhos científicos apresentados, e também o alcance da iniciativa, que contou com a participação de cerca de 1.200 profissionais da educação da região. “Ele funcionou como uma formação continuada, uma atualização profissional para esse público”, destaca Diana.

Segundo a professora, a publicação também cumpre o papel de ampliar o acesso às discussões mais recentes sobre o autismo a permitir que pessoas que não compareceram ao evento tenham contato com os conteúdos apresentados.

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Diana Negrão Cavalcanti é professora da Universidade Federal Fluminense. Atualmente é Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros da UFF (PBMAC – 2023 – 2027). Licenciada em Ciências Biológicas, especialista em Bioquímica, mestre em Química Orgânica e doutorado em Química Orgânica. Pós doutorado em Biologia Marinha (bolsista PRODOC/CAPES – UFF), pesquisador visitante (Fiocruz), bolsista PNPD (UFF) e ex-Professora Adjunto A no Instituto do Mar da UNIFESP, campus Baixada Santista (2013). Desde 2014 é Professora da Universidade Federal Fluminense, atuando na graduação e na Pós-graduação em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros, Programa de Pós-graduação em Ciência, Tecnologia e Inclusão (PGCTIn) e Mestrado Profissional em Diversidade e Inclusão (CMPDI), onde foi coordenadora (2018-2022). Tem experiencia na formação de recursos humanos, orientando alunos de graduação e pós-graduação nas áreas de Biologia Marinha, biotecnologia marinha (com enfase em Química dos Produtos Naturais de algas marinhas, técnicas cromatográficas e espectroscópicas, bioprospecção, dereplicação e biossintese) e em Ensino (com ênfase em Transtorno do Espectro do Autismo). Tem projetos de pesquisa na área de Biodiversidade e na área do Autismo. Tem projetos de extensão com o tema Algas Marinhas e coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisa em Autismo (NEPA). Foi membro fundador da Associação Caminho Azul, instituição civil sem fins lucrativos que atuava nas vertentes da assistencia, desenvolvimento científico e clinico do Autismo, onde exerceu a função de vice-presidente. É mãe de jovem com dupla excepcionalidade (autismo e superdotação)

Gisele Soares Rodrigues do Nascimento atua na Secretaria Municipal de Educação em Maricá (RJ) como Orientadora Pedagógica e Professor Docente II.Possui Pós-Doutorado em Ciências e Biotecnologia (UFF-PPBI) em 2021 e Pós-Doutorado em Ciências, Tecnologias e Inclusão(PGCTIn-UFF) em 2025. Doutora em Ciências e Biotecnologia (2018) pela Universidade Federal Fluminense (UFF-PPBI). Mestre em Diversidade e Inclusão (CMPDI-UFF) em 2016. Formada em: Ciências Biológicas, Pedagogia e Sociologia. Pesquisa / Interesse pelas seguintes temáticas: Transtorno do Espectro Autista, Altas Habilidades ou Superdotação,Biotecnologia, Nanotecnologia, Tecnologias Sociais, Biodiversidade, Oceano( algas marinhas,esponjas e fungos), popularização e promoção da ciência,Educação Especial, Educação Inclusiva, Gestão Pública, Informática Educacional, Alfabetização, Autismo, Agroecologia, Empreendedorismo social e tecnológico, Educação Escolar Indígena-Quilombola e do Campo, Saúde Pública/Coletiva , Formação Continuada de Professores, Desenvolvimento / Análise / Avaliação de Novas Estratégias no Processo de Ensino e Aprendizagem de Ciências e Biotecnologia, Análise Molecular, Celular e/ou Sistêmica de Processos Biológicos e Biotecnológicos, Identificação de Novos Protótipos e Moléculas Bioativas, Propriedade Intelectual/ Industrial (Patentes de Invenção- produtos e/ou serviços), Registros e Marcas.

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