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Angela Puppim: 6ª Crônica: — dona Carminda



Angela Puppim


Fragmentos do Agorar – Crônicas do Cotidiano

Angela Puppim – Escritora


A literatura entrou na minha vida de uma forma muito curiosa e só recentemente lembrei-me de como isso aconteceu, ao reler a crônica Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector. 

Esta crônica foi publicada inicialmente em 1971 no livro de mesmo nome — Felicidade Clandestina —, que reúne vários textos de Clarice Lispector que foram escritos em diversas fases da vida da autora. Conta a história de uma “menina má”, que oferece emprestado à narradora um livro muito desejado por esta, mas que inventa sempre uma desculpa para não entregar o livro a ela. Até que a mãe da tal menina descobre isso e entrega o livro para a narradora, que o saboreia como se fosse um amante.


“Não era mais uma menina com seu livro: era uma mulher com seu amante.”

Clarice Lispector

Ao reler essa crônica, recordei-me de um fato pitoresco de minha infância, que desencadeou meu primeiro encontro apaixonado com o livro, e em que a personagem “mãe da menina” teve um papel decisivo em promover a aproximação com o “meu primeiro amor” — o livro.

Meus pais não cultivavam o hábito de ler, assim eu só lia os livros escolares, que pouco nos aproximavam do texto literário.

Minha melhor amiga do colégio tirou notas baixas na escola, e, para ajudá-la, estudei com ela em sua casa, a pedido de sua mãe. Quando estávamos estudando, observei uma enorme estante repleta de livros. Fiquei fascinada! Como alguém podia ter tantos livros assim?!

Na semana seguinte, após as provas escolares, lanchei na casa de minha amiga, a convite de sua mãe, para celebrarmos as boas notas que tiramos. Que surpresa a minha! Sua mãe me fez uma oferta: me emprestaria a coleção completa de Monteiro Lobato, sendo um livro por mês, até eu completar a leitura da coleção inteira. Fiquei radiante, e, para começar, ela me ofereceu o livro Reinações de Narizinho!


“Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar.”

Monteiro Lobato

Fui para casa tal como a personagem de Clarice Lispector: “em êxtase puríssimo!”

Que maravilha viajar por esse mundo mágico da literatura infantil!

Assim, sempre que ia devolver um livro, falávamos sobre as histórias, lanchávamos, e, para não “fazer desfeita” à dona Carminda, eu estudava com sua filha.

Foi dessa forma literária que me apaixonei pela literatura. Viva dona Carminda! A ela, minha eterna gratidão!

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