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Angela Puppim: 7ª Crônica: — Paisagens imortalizadas da nossa infância



Angela Puppim


Fragmentos do Agorar – Crônicas do Cotidiano

Angela Puppim – Escritora


“Nós somos a saudade da nossa infância. Vivemos dela, alimentamo-nos do seu mistério e da sua distância. Creio que são eles, unicamente, que nos sustentam a vida, com a essência da esperança. […] Temos as paisagens da nossa infância imortalizadas em nós; e os vultos que por ela transitaram, e as palavras que então floresceram, e o ritmo e o aroma que animavam cada aparência tornada confusa e obscura pelo tumulto das épocas seguintes.”


Cecília Meireles, em Crônicas de educação

Dia de chuva fina, friozinho, solidão, uma certa nostalgia, resolvo me socorrer na poesia de Cecília Meireles, em Crônicas de educação e Poesias completas, e logo nas primeiras leituras sou levada às paisagens imortalizadas de minha infância: o terreno baldio da minha rua, uma espécie de pracinha improvisada pela meninada, o quintal e o jardim de minha casa. Dessas paisagens destacam-se, com nitidez na memória, três árvores: a Tamarineira, a Goiabeira e o Pé de Laranja da Terra, companheiras inseparáveis de infância.

Esse tipo de paisagens também preencheu de leveza os dias de solidão de Cecília Meireles, os convívios consigo mesma, os seus silêncios e a observação minuciosa de pequenos detalhes: frutas, flores, pássaros, borboletas. O desamparo de Cecília, órfã prematuramente, propiciou à menina um encontro peculiar e criativo com a natureza, tirando desse contato e de dentro de si mesma o amor que lhe era escasso. A recordação desse contato transformou-se em poesia e na permanente referência à beleza da natureza que a cercava. Tudo isso pode ser sentido em sua poesia.

Meus dias foram aquelas romãs brunidas
repletas de cor e sumo e doçura compacta.
Foram aquelas dálias, redondas colmeias
cheias de abelhas, de vento e de horizontes.
Meus dias foram aquelas negras raízes
escravas, caminhando por humildes subterrâneos.
Foram aquelas rosas duramente construídas
e logo sopradas por lábios displicentes.
Ah! meus dias foram aqueles sóbrios cactos
de raríssima flor encravada em coroas de espinhos.
Meus dias foram estes altos muros robustos,
este peso de enormes pedras, este cansado limite,
onde pousavam solidões, palavras, enganos
com o brilho, a inconstância desta incerta borboleta.


– Cecília Meireles, em Poesias completas

Inspirada por Cecília, deixo fluir na escrita as memórias de cada uma daquelas árvores como se, assim o fazendo, estivesse nutrindo minhas raízes, resgatando minha criança interior e fortalecendo a esperança de que dias melhores virão.

No meio daquele enorme terreno baldio descampado, lá estava ela — a Tamarineira — frondosa, altaneira, com raízes gigantes, a mais querida companheira de infância.

Ao redor de suas sombras brincava a meninada. As pipas todas enroscadas em seus galhos davam-lhe um tom de leveza, encantamento de vida que vibra e pulsa.

O seu tamanho gigante nos ensinava a ter medo e respeito por essa árvore forte, que cantava assombramentos por seus poros, enrugados e belos.

As suas folhas miúdas, suas flores amarelas, em cachos garbosos, nos encantavam a vida e floriam o nosso meninar.

Os seus frutos, de acidez agridoce, nos fisgava em um frenesi de aflição, de gozo rápido e apetitoso, um clímax sem fim!

“Tamarineira, foste a tradução da essência natural da vida! Foste dádiva dos céus! Ensinaste a admirar o belo, o feio, o doce e o agridoce da vida! Tua majestosa ancestralidade se fez sentir em doação, em ensinamentos, em sábios conselhos, em histórias do sem fim!”

No quintal de terra, capim por toda parte, trepadeiras floridas e lá no meio, frondosa e bela, a Goiabeira em flor!

Dentre as outras árvores da infância, a Goiabeira de nosso quintal é uma das recordações mais saborosas!

Seus galhos grandes me abraçavam forte e embalavam o meu vicejar. Saltitando de galho em galho, pernas pro ar, via o mundo todo brilhante, de ponta-cabeça, a balançar. Aquele balanço pendurado me convidava: “Balança, balança!”, os cabelos livres no ar, a mente imaginando o mundo inteiro a rodar.

Seus frutos gostosos, que alimentavam a alma e o espírito, davam força ao meu corpo, que teimava em espichar.

“Que saudades tuas eu sentia, em dias de chuva fina que me impedia de brincar. Mas logo, ao primeiro feixe de sol, lá ia eu ao teu encontro. E tuas folhas brilhantes, com gotículas saltitantes me recebiam a bailar.

Goiabeira, goiabeira, foste o par mais constante, a amiga que me inspirava confiança, a alegria pujante de Mãe Natureza a embalar os sonhos, as tristezas e as alegrias daquela doce criança.”

No jardim da casa da infância, um frondoso Pé de Laranja da Terra.

Durante todo o ano nos dava sombra para brincar. Suas flores nos perfumavam e encantavam o anoitecer. As maiores entre todas as recordações: o período da colheita dos frutos.

O Pé de Laranja abarrotado de frutos. Ouço a algazarra da vizinhança na colheita coletiva – seus frutos colhidos e depositados em cestas eram levados pelas famílias amigas, num alvoroço gostoso, em risadas que escuto ainda hoje.

Depois o “ritual” que eu presenciava e participava: o preparo do doce.

Minha mãe iniciava o ritual:

Ralava a parte amarela para não ferir a polpa.
Cortava a laranja em cruz,
com cuidado para não separar as quatro partes.
Retirava toda a polpa da laranja
– a casca se transformava em uma flor de quatro pétalas.
Lavava muito bem essas pétalas e as colocava de molho
por uns sete dias, mudando sempre a água,
até que todo o amargor desaparecesse.
Só, então, se ferviam as cascas em pétalas.
Uma calda era feita no fogo.
Quando a calda estivesse fervendo,
mergulhavam-se as pétalas das laranjas,
juntamente com alguns cravos da índia e pedaços de pau de canela.
As pétalas das laranjas absorviam a calda e ficavam no ponto certo

Uma delícia!

Esse ritual do preparo do doce era uma prática de todas as famílias amigas da vizinhança. Mas nem todas faziam o doce simples; algumas o preferiam caramelizado, outras, o doce cristalizado, ou mesmo preparado em forma de lascas adocicadas para se saborear com café. Que diversidade de maravilhosas receitas!

Era como se fosse, em minha cabeça de menina, um Festival da Laranja da Terra!

E depois, dispostas nas cristaleiras, as lindas compoteiras nos convidavam ao prazer maior de degustar o doce feito por múltiplas mãos!

Percebo agora que esse senso comunitário, esse zelo e respeito pela natureza, se enraizaram em mim desde a infância. São essas as heranças que nos constroem!

Paisagens imortalizadas da nossa infância são a essência da esperança, como nos ensina Cecília Meireles.

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