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Breve Frames



Rudá Lemos

Tá rindo de quê? – Em “O Riso: Ensaio Sobre a Significação do Cômico”, Henri Bergson disseca essa condição inerente do ser humano e mostra a perspectiva subversiva da rigidez desse ato que congela a face: “Toda rigidez do caráter, do espírito, e mesmo do corpo, será então suspeita para a sociedade, por ser o possível sinal de uma atividade adormecida, que tende a afastar-se do centro gravitacional comum em torno do qual a sociedade gravita”. Ainda segundo ele, o cômico seria uma suspensão da sensibilidade para com o outro.

O “Coringa” de Todd Philips não precisava nem ser um sanguinário homicida para ser um desafeto da sociedade, a sua forma de encarar as tensões de um mundo profundamente marcado pela competição e frialidade mistura um sarcasmo ferino com desvios psicológicos complexos.

Em uma das adaptações de quadrinhos mais sóbrias e bem realizadas que se tem notícia, “Coringa” é também um tour de force para Joaquin Phoenix bailar em expressões faciais variadas e um domínio de cena próximo da perfeição. Se havia dúvidas do talento de quem já tinha brilhado em “O Mestre, “Era uma vez em Nova York” e “Homem Irracional”, qualquer suspeita dessa ordem deve ter sido enterrada.

Vencedor do último Festival de Veneza – galardoado por ninguém menos que a iluminada cineasta argentina Lucrecia Martel -, é um filme de matizes riquíssimas tanto nesse estudo de personagem com traumas profundos e no diagnóstico de uma sociedade fraturada, como também de cinemão de ação ao nível de Scorsese e De Palma.

Cadê papai? – Brad Pitt vai ao espaço em “Ad Astra – Rumo às Estrelas”, ficção científica do elegante diretor James Gray, cineasta que também já tanto trabalhou com Joaquin Phoenix. Aqui, Pitt faz parte de expedição de resgate da tripulação que ficou presa em operação no planeta Netuno e liderada por seu pai, em atuação amargurada de Tommy Lee Jones.

O tom é etéreo, com narração em off de lamentos edipianos sobre frustrações e indiferença paterna. Parece que o futuro nos reserva tecnologia suficiente para colonizar a lua e os planetas mas uma incapacidade para desenvolver as relações interpessoais com a empatia necessária.

É interessante ver essa sensibilidade que é constante da cinematografia de Gray associada com a grandiloquência do gênero sci-fi: a abordagem psicológica de satisfatória profundidade se combina a cenas de assombrosa beleza gráfica do universo e uma atmosfera bem desenvolta de tensão. O filme passa a ser exibido no Cine Arte UFF a partir da quinta, 17.

Os maiores festivais de cinema brasileiros estão a caminho – A campanha de financiamento para o Festival do Rio está dando certo e a nova data foi marcada para encerrar o ano com alívio para os cinéfilos: de 9 a 19 de dezembro. A campanha segue e oferece brindes para doações a partir de R$20 e quanto maior dinheiro arrecadado mais expressiva e ampla será sua programação, ameaçada por falta de recursos por atuais governos que não investem como deveriam na cultura. 

Em São Paulo, a 43a. Mostra Internacional de Cinema começa na quinta, 17, e segue até o dia 30. A programação, rica em filmes premiados por diversos festivais (inclusive o vencedor da Palma de Ouro de 2019, o sul-coreano “Parasita“), pode ser conferida aqui e as recomendações do excelente crítico Filipe Furtado acessadas neste link..

“Me chama de Greta Garbo” – “Greta” se sustenta principalmente por dois pilares colossais, ao meu ver: a atuação de Marco Nanini de rosto repleto de trejeitos discretos que revelam sentimentos profundos; e a fotografia de Ivo Lopes Araújo, um verdadeiro gênio da luz de cinema, que pinta quadros disfarçados de fotogramas sequenciais.

O roteiro, às vezes, aparenta ser vacilante na composição de suas reviravoltas dramáticas ao tratar o caso desse enfermeiro homossexual que se envolve com um rapaz bem mais novo. 

O resultado final é sereno e afetuoso com seus personagens, ao mesmo tempo que corajoso em mostrar cenas de sexo – o que deve ter incomodado a ANCINE, instituição que se tornou quase um órgão de censura ao negar investimento para o filme circular em festivais, assim como recentemente, e por motivos inegavelmente políticos, suspendeu a renda de distribuição de “Marighella”.

Realizado em Fortaleza por Armando Praça, seu primeiro longa, reitero que o filme marca por mostrar Marco Nanini com tantas matizes faciais, como por sacramentar Ivo Lopes Araújo como um dos melhores diretores de fotografia do cinema brasileiro recente (ele que também iluminou com mesma graça “Tatuagem”, “Girimunho” e “Brasil S/A”).

A dureza da pobreza – Outro nacional recém-estreado nos cinemas é “Sócrates”, um filme de amargura de difícil digestão. No acompanhamento a tiracolo de um adolescente pobre, negro e gay, que perde sua mãe precocemente e tem que lidar com o fato de não ter com quem contar, sentimos juntos as dores de tantos meninos brasileiros que aí estão nesta orfandade tanto material, como de alma.

Em comparação imediata com o cinema francês dos irmãos Dardennes, esta estreia de Alexandre Moratto em longa-metragem e produzida por Fernando Meirelles, é um tortuoso drama que oferece poucas saídas para quem está nessa situação, ao mesmo tempo que mostra o vigor, a vertigem e a vontade de sobreviver de seu protagonista.

Não é fácil acompanhar o filme sem se deprimir – ao mesmo tempo em que é possível admirar a qualidade da montagem dinâmica, a trilha sonora atmosférica e urbana e as atuações bem naturalistas.

Obra-prima em orquestra – Que emoção é assistir um clássico do cinema com acompanhamento ao vivo de uma orquestra e só mesmo o Cine Arte UFF para proporcionar isso gratuitamente. A última vez tinha sido com “Metropolis” no Teatro Municipal do RJ, há alguns anos. Dessa vez, pela mostra de cinema do BRICS, tive oportunidade de ver “Ganga Bruta”, filme de 1933 de Humberto Mauro com a Orquestra Sinfônica Nacional. 

Humberto ficou muito marcado na início da história do nosso cinema por realizar documentários e filmes educativos. Aqui desenvolve uma disputa pelo amor de uma mulher e os conflitos entre os meios urbanos/rurais narrados de formas alegóricas, flashbacks criativos e efeitos de câmera impressionantes para o cinema da época. Há uma sensualidade no filme que impressiona de imediato, assim como a elaboração de uma tensão crescente. A trilha composta por Radamés Gnatalli e regida ao vivo por Thiago Santos é de grande beleza e se silencia quando surgem samba-canções dentro da diegese do filme, como ” Taìí” de Carmen Miranda.

Acredito que o filme já é incrível por si mesmo, se bastando sem precisar se apoiar nas referências que estavam sendo realizadas com o desenvolvimento do cinema narrativo a nível mundial, mas uma das formas de ser apreciado é também tentando pescar essas referências: os movimentos europeus de vanguarda como o expressionismo alemão, a dramaticidade de Griffith e a montagem elíptica do cinema soviético – muita coisa pode ser linkada ali e ampliar os seus sentidos.

Novas estreias e destaques que permanecem em cartaz: Não muito interessado pelo novo “Malévola”, nem o pós-apocalíptico filme de Casey Affleck, “A Luz no Fim do Mundo”, para mim a grande estreia da semana reforça a boa fase do cinema nacional: “Meu Nome é Daniel“, filme ensaio com as reflexões de um cineasta portador de deficiência – na próxima coluna devo falar um pouco mais sobre esse emotivo filme.

E seguem em cartaz outros filmes nacionais de notório interesse como “Morto não Fala” e “A Noite Amarela“, que marcam o presença forte do cinema de gênero no país, acompanhado por “Clube dos Canibais” (que infelizmente já saiu de cartaz) e “Bacurau”, que permanece nos cinemas (já fez mais de 10 mil espectadores no Cine Arte UFF – um recorde desde que o cinema voltou de reforma).

Entre exibições especiais, temos “Desejo e Obsessão” da Claire Denis, na sexta, 18, às 18h na Academia Internacional de Cinema em Botafogo, com debate ao final da sessão. E na cinemateca do MAM, é possível conferir filmes clássicos do terror da mostra “Primórdios do Medo” (até dia 20) e Truffaut em 35mm (até dia 29) – além disso na sexta 18, “Rio Zona Norte” do Nelson Pereira dos Santos, será exibido em 35mm.

Brevíssimos frames: A ativista do feminismo negro Angela Davis fará uma conferência aberta no Cine Odeon, como parte do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, no dia 23. A mostra é uma oportunidade única de ter acesso a obras do continente africano e da diáspora e conta também com minicursos e oficinas. Na próxima coluna já devemos ter a programação completa e daí podemos recomendar filmes para serem vistos./// Ótima matéria em inglês sobre as mudanças na qualidade das novas câmeras cinematográficas em que são analisadas as lentes de “Coringa, “Midsommar”, “Se a Rua Beale Falasse” e “Roma”./// Para ver de casa: disponibilizada digitalmente e gratuitamente os 100 melhores filmes nacionais selecionados pela associação Abraacine de críticos.


Sobre o autor: Formado em Jornalismo e Filosofia, para Rudá Lemos o mundo só começou a fazer sentido quando ele se encantou com a magia do cinema. Desde então são quase 30 anos de paixão fiel: filmes que movem a vida e a vida que se move como um filme. Com gosto amplo que vai desde a simplicidade crítica de Charles Chaplin até a austeridade contemporânea de Pedro Costa.

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