Pesquisa da UFF mostra os impactos dos plásticos não-recicláveis nas organizações de catadores
A reciclagem é um recurso eficaz para reduzir a poluição causada pelo excesso de plástico no meio ambiente. Porém, a prática esbarra em um problema: parte do material que chega à triagem das cooperativas com potencial para reciclagem se revela como resíduo com falta de condições de reciclabilidade.
Como forma de propor uma alternativa ao problema, o estudo produzido pela InTECSOL – Incubadora Tecnológica de Empreendimentos de Economia Solidária do Médio Paraíba, ligada ao Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal Fluminense (ICHS-UFF) de Volta Redonda, e o Instituto de Direito Coletivo (IDC), busca compreender qual é a parcela dos plásticos que não são recuperados durante o processo de coleta seletiva e reciclagem e, a partir dessa amostra, classificar os diferentes tipos de embalagens encontradas.
A pesquisa sobre a não reciclabilidade de plásticos e o seu impacto nas cooperativas de catadores de materiais recicláveis traz pela primeira vez um estudo em larga escala sobre o tema, diferente de abordagens pontuais realizadas em cooperativas específicas. A iniciativa é coordenada pelo professor do Departamento de Administração da UFF de Volta Redonda, Luís Henrique Abegão, com a colaboração dos pesquisadores Demétrio Luiz Riguete Gripp, mestrando em Administração Pública pela UFF, e Priscilla de Souza Francisco, tecnóloga em Logística e em Gestão Ambiental, além da equipe do IDC.
A pesquisa também aponta que a maior parte dos rejeitos encontrados nas cooperativas de catadores são compostos de plásticos sem reciclabilidade, superando até mesmo os rejeitos à base de orgânicos capturados pelas coletas.
“Nós tivemos um índice de mais de 60% de plásticos entre os rejeitos, na primeira fase da pesquisa, e de 45% na segunda fase. Em ambas, os plásticos foram a classe mais representativa entre os rejeitos. A partir disso, fizemos um estudo específico para entender quais são os tipos de plásticos encontrados entre os rejeitos, por que ele é considerado rejeito pela cooperativa e por que não tem reciclabilidade”, conta o professor Abegão.
Metodologia aplicada
A pesquisa contou com a participação de 20 cooperativas em duas fases. Durante a primeira, participaram dez da cidade do Rio de Janeiro e o mesmo número no Sul Fluminense. Já na segunda, foram oito instituições da capital fluminense e 12 no interior do estado.
A primeira fase concentrou-se na coleta de informações sobre os resíduos coletados e a presença dos plásticos, seja entre os materiais recicláveis ou entre os rejeitos. . Os pesquisadores fizeram o levantamento de como os resíduos eram coletados no território: se havia um programa de coleta seletiva residencial, se os moradores faziam doações às associações ou cooperativas ou, ainda, se os resíduos eram oriundos de grandes geradores. Após o levantamento dos dados preliminares, a pesquisa se voltou para o estudo da gravimetria, um método utilizado para a identificação e análise física da composição das amostras coletadas nas cooperativas.
“No primeiro momento, queríamos entender a composição do resíduo. Quanto é de papel, quanto é papelão, metais, plástico, vidros e, especificamente, a quantidade de rejeitos. O último é o produto entendido pela cooperativa como algo sem viabilidade econômica, ou seja, que ela não consegue vender para ninguém”, explica o coordenador.
Quarteamento dos resíduos utilizados para a gravimetria. Foto: Divulgação
Após a realização da gravimetria geral das amostras, foi realizado uma segunda na fração dos materiais considerados como rejeitos, a pesquisa realizou uma subclassificação para entender a origem dos materiais e os motivos que os fazem não ter comercialidade para as cooperativas, servindo como base para a construção de novos identificadores socioeconômicos.
O impacto gerado nos colaboradores
Abegão também aponta para um outro aspecto analisado durante o estudo, o impacto dos plásticos não recicláveis na produtividade dos trabalhadores. “Nós não queríamos só olhar para reciclabilidade do plástico, mas também para o trabalho do catador, ou seja, como é que isso impacta nas cooperativas de catadores.”
O relatório aponta que cada catador perde, em média, 16 horas de trabalho mensais – o equivalente a dois dias de trabalho completos – no processo de triagem de materiais que não geram renda ao final do processo. Outro ponto ressaltado pelo docente foi o da dificuldade de conseguir um canal de vendas para certos tipos de plásticos, como os que vêm em cima das cartelas de ovos.
Embalagens plásticas consideradas como rejeitos. Foto: Divulgação
“Existe um material que as cooperativas chamam de PET bandeja, que é o plástico transparente utilizado em embalagem de bolo e de ovo, por exemplo, e a maioria das cooperativas não consegue comercializar e descartam. Porém, é um plástico com reciclabilidade, tecnicamente falando”, explica o coordenador.
Além disso, segundo o relatório final, as cooperativas que não conseguem comercializar o PET bandeja e outros plásticos sem condições de reciclagem deixam de arrecadar, mensalmente, um valor que .pode variar de R$ 1,2 mil a R$ 3,8 mil
Resultados da pesquisa
Na amostra global das análises, a presença do plástico entre os rejeitos apresentou uma queda entre as fases. Durante a primeira rodada, foi constatado um percentual de 63,82% do material na categoria dos não-recicláveis, enquanto na segunda bateria o percentual foi reduzido para 44,83%. Porém, apesar do número geral indicar uma redução, ao separar os números da capital e do interior é possível notar uma discrepância.
Enquanto no Sul Fluminense não houve mudanças significativas na quantidade de plástico entre rejeitos, na capital observa-se uma queda drástica de plástico entre os rejeitos. Ao final da primeira fase, foi apontado que 66,28% do resíduo não-reciclável, no Rio, eram plásticos, enquanto na segunda fase o percentual caiu para 27,93%. Segundo o professor, a mudança pode ser explicada pelo aumento de lixo orgânico, que saltou de 24,07% para 53,18%. A alta de orgânicos entre os rejeitos faz com que os catadores passem mais tempo tendo que limpar os materiais recicláveis e, consequentemente, diminui a produtividade das cooperativas.
A pesquisadora Priscilla de Souza Francisco realizando a coleta de amostras. Foto: Divulgação
A pesquisa também aponta para a presença alarmante de embalagens oriundas da indústria alimentícia. Quase 82% dos rejeitos plásticos vêm dessa indústria, com os chamados plásticos BOPP – comumente utilizados em embalagens de biscoitos e salgadinhos – liderando o volume com 36,59%.
O Projeto de Lei da Economia Circular do Plástico (PL 2524/2022), em tramitação no Congresso Nacional, propõe o fim dos objetos plásticos de uso único, como copos e talheres descartáveis. Além disso, a proposta incentiva o segmento industrial a pensar em alternativas para as embalagens. “A indústria tem incentivos, inclusive, para que ela se adeque, tanto a melhorar suas embalagens, quanto a pensar em modelos alternativos ao plástico”, aponta Abegão.
O InTECSOL e o IDC têm a intenção de realizar uma terceira fase da pesquisa, focada nas cooperativas da cidade do Rio de Janeiro. A incubadora é um projeto de extensão vinculado ao Instituto de Ciências Humanas e Sociais da UFF de Volta Redonda. Atualmente conta com a colaboração de quatro docentes e 13 alunos de graduação, vinculados aos cursos de Administração, Administração Pública, Ciências Contábeis e Psicologia. Além disso, possui a participação de seis alunos formados, que atuam como educadores populares.
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Luís Henrique Abegão professor associado do Departamento de Administração e Administração Pública do Instituto de Ciências Humanas e Sociais de Volta Redonda da Universidade Federal Fluminense. Graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1992), mestrado (1996) e doutorado (2002) em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na atividade docente junto aos cursos de Administração e Administração Pública atua em áreas como Administração Mercadológica, Marketing no Setor Público, Gestão de Projetos Sociais, Tecnologias Sociais, Ética Organizacional e Responsabilidade Social Corporativa. Nas áreas de pesquisa e extensão dedica-se a temas como: elaboração e avaliação de projetos sociais, gestão social e economia solidária. Tutor do Programa de Educação Tutorial da Sesu/MEC desde 2010 junto ao Grupo PET Administração (PET Gestão Social) e Coordenador da InTECSOL – Incubadora Tecnológica de Empreendimentos de Economia Solidária do Médio Paraíba desde 2014. Atualmente também ocupa o cargo de Diretor do Instituto de Ciências Humanas e Sociais de Volta Redonda.
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