Estudo da UFF mostra que 60% da costa do estado do Rio está vulnerável às mudanças climáticas
A Praia de Atafona, no litoral Norte Fluminense, sofre há mais de 45 anos com o avanço do mar para o continente. Foto: www.parahybano.com.br
Tempestades mais intensas, ressacas frequentes e o avanço do nível do mar já fazem parte da realidade de quem vive no litoral do estado do Rio de Janeiro. Esse cenário impulsionou a elaboração de um estudo conduzido pelo doutorando Igor Henud e pelo professor Abílio Soares, da Universidade Federal Fluminense (UFF), que revela que aproximadamente 60% da costa fluminense apresenta níveis intermediários ou altos de vulnerabilidade costeira, tornando extensas áreas mais suscetíveis a processos de erosão e inundação.
Com cerca de 1.160 quilômetros de extensão, a zona costeira fluminense abriga 33 municípios e concentra aproximadamente 83% da população do estado, configurando-se como um território ao mesmo tempo sensível e fundamental para o desenvolvimento socioeconômico. No entanto, essa faixa enfrenta pressão crescente da urbanização desordenada, do turismo de massa e da exploração econômica intensiva, fatores que aceleram a degradação ambiental e comprometem a capacidade de resposta aos eventos extremos.
Para chegar ao diagnóstico, os pesquisadores utilizaram o modelo de vulnerabilidade costeira do programa InVEST, que integra variáveis ambientais e socioeconômicas, como densidade populacional, presença de infraestrutura logística e áreas prioritárias para a conservação da fauna e flora. Os resultados indicam que a supressão contínua de habitats naturais intensifica os riscos ambientais e amplia a exposição do estado a desastres de maior magnitude no futuro.
Publicado na forma de artigo científico “Coastal resilience and adaptation strategies: Natural habitats for coastal protection and Atlantic forest restoration on the coast of the Rio de Janeiro state”, no Internacional Journal of Disaster Risk Reduction, o estudo destaca o papel estratégico dos ecossistemas naturais na mitigação de riscos associados à erosão e às inundações costeiras, além de propor estratégias de adaptação baseadas na natureza como alternativa eficaz às soluções tradicionais de engenharia.
Norte Fluminense e Baixadas Litorâneas concentram os cenários mais críticos de vulnerabilidade
Os piores indicadores de vulnerabilidade costeira concentram-se nas regiões do Norte Fluminense e das Baixadas Litorâneas, onde fatores naturais se combinam à fragmentação dos habitats. No Norte Fluminense, características como relevo, regime de ventos e potencial de formação de ondas elevam o risco, mesmo em áreas onde a vegetação ainda se mantém preservada. “Isso mostra que, sem essa cobertura vegetal, a situação seria ainda mais grave”, destaca Henud.
A região abriga uma das maiores extensões contínuas de restinga herbácea do Brasil, mas enfrenta forte pressão associada à infraestrutura portuária e à expansão urbana. Segundo o estudo, a ampliação de áreas protegidas e a restauração de trechos degradados são estratégias fundamentais para reduzir a fragmentação, fortalecer a proteção da linha de costa e proteger tanto os ecossistemas quanto as comunidades locais.
O que traz a vulnerabilidade da costa fluminense?
A análise considerou variáveis físicas como relevo, ventos, ondas e correntes marítimas, além da cobertura vegetal e do grau de ocupação humana. Henud ressalta que alta vulnerabilidade não significa necessariamente que a erosão já esteja ocorrendo, mas indica maior propensão ao risco. “O vento e as correntes se mostraram decisivos por influenciarem diretamente a formação e a intensidade das ondas. Já do ponto de vista da proteção, a vegetação costeira é um elemento-chave”, explica.
Os pesquisadores reforçam que habitats naturais, como manguezais e restingas, atuam como barreiras naturais capazes de absorver parte da energia das ondas e das tempestades. A remoção desses ecossistemas, segundo o estudo, contribui de forma significativa para o aumento da vulnerabilidade costeira.
Análise comparativa das regiões ao longo dos últimos 20 anos. As imagens finais são fotografias que ilustram os danos causados pela erosão costeira e pela elevação do nível do mar nas regiões mencionadas. Foto: Artigo.
Eventos extremos cada vez mais frequentes agravam esse cenário. “O aumento das ressacas intensifica a vulnerabilidade, sobretudo em áreas onde a proteção natural da linha de costa foi reduzida”, acrescenta Abílio Soares. “Em alguns casos, mesmo com a vegetação bem preservada, o risco permanece elevado, o que indica que esses ecossistemas operam no limite de sua capacidade de proteção”.
Mapas e gráficos apresentados no artigo comparam cenários com e sem a presença de habitats naturais ao longo da costa fluminense. Os dados mostram que, na ausência desses ecossistemas, diminuem significativamente as áreas classificadas como de baixo risco e aumentam os trechos de alto risco. Em termos simples, a vegetação costeira funciona como uma barreira natural que ajuda a reduzir o impacto das ondas e das tempestades. Quando ela é removida, a costa fica mais exposta, elevando o risco de danos ambientais, urbanos e econômicos.
Mapa de exposição da linha de costa do estado do Rio de Janeiro a tempestades e gráfico de Índice de Exposição Costeira ao longo do litoral do estado, com e sem habitats naturais. Fonte: Artigo.
Um dos exemplos mais emblemáticos está novamente no Norte Fluminense. “Trata-se de uma região de grande importância ecológica e logística, com presença de portos e outras infraestruturas. A vegetação está fragmentada e, apesar de protegida legalmente em alguns trechos, ainda sofre forte pressão da ação humana”, observa Henud.
Soluções sustentáveis como alternativa frente à crise climática
O estudo defende a implementação de soluções baseadas na natureza (Nature-based Solutions – NbS) como a estratégia mais eficaz e sustentável para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas. Esses recursos incluem a restauração de ecossistemas, o manejo adaptativo do território e a proteção de habitats naturais. Além de reduzir riscos, as NbS oferecem benefícios adicionais, como melhoria da qualidade da água, mitigação de poluentes atmosféricos e aumento da resiliência a desastres.
“Ao contrário das infraestruturas convencionais, essas soluções são ecologicamente sensíveis, economicamente viáveis e sustentáveis no longo prazo”, afirma Henud. A abordagem permite integrar conservação ambiental, impulsionar o desenvolvimento econômico e gerar benefícios tanto para a biodiversidade quanto para as populações costeiras.
Uma lacuna identificada pelos pesquisadores é o fato de que grande parte das áreas legalmente protegidas não inclui habitats costeiros, deixando ecossistemas estratégicos fora do escopo de preservação oficial. A ampliação dessas regiões aparece, portanto, como uma das principais recomendações do estudo para reduzir a fragmentação e fortalecer a resiliência climática.
Vulnerabilidade ambiental e social caminham juntas no litoral fluminense
Outro aspecto inovador da pesquisa foi a incorporação de fatores socioeconômicos na análise de risco. O Rio está entre os estados mais densamente povoados do país e tem sua economia fortemente vinculada ao mar, com atividades como turismo, pesca e exploração de petróleo. Nesse contexto, a supressão da Mata Atlântica, bioma que já perdeu mais de 80% de sua cobertura original, compromete a resiliência ambiental e amplia a exposição a eventos extremos.
Para Henud, o atual modelo de desenvolvimento econômico produz efeitos ambíguos. “Há impactos positivos iniciais, como geração de emprego e renda, mas também ocorre uma supressão ambiental significativa. Exemplos disso são a expansão portuária e grandes obras urbanas, como as realizadas para o campo de golfe na Barra da Tijuca durante as Olimpíadas. Os empreendimentos atraem trabalhadores que se fixam em áreas periféricas sem infraestrutura adequada, o que gera novos impactos ambientais e sociais”, afirma.
Em contraste, comunidades tradicionais mantêm, há séculos, uma relação mais equilibrada com o território ao utilizar os recursos naturais de forma menos intensiva, que permitem sua regeneração. “Já em áreas urbanas, especialmente na Região dos Lagos, a expansão imobiliária avançou de forma acelerada sobre habitats naturais, um processo intensificado a partir da década de 1970”, acrescenta o doutorando.
O professor Abílio Soares ressalta que a pesquisa também analisou a presença de atividades logísticas, como portos, frequentemente instaladas em áreas ambientalmente sensíveis, incluindo zonas de desova de tartarugas e rotas de migração de espécies marinhas. “Muitos desses empreendimentos produzem um impacto socioeconômico positivo inicial, mas não garantem condições dignas de permanência para as populações locais após a fase de implantação. Isso resulta em marginalização social e em pressões adicionais sobre o ambiente, como o desmatamento e a ausência de saneamento”, explica.
Diante desse cenário, o artigo aponta que, além da análise espacial da vulnerabilidade, é essencial mapear projetos de restauração costeira e identificar quem se beneficia dessas iniciativas, de forma a orientar políticas públicas mais inclusivas e eficazes, capazes de articular conservação ambiental e justiça social.
A pesquisa contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e da comunidade de pesquisadores do Natural Capital Project, que ofereceu suporte técnico para a aplicação do modelo InVEST. O estudo representa um avanço relevante na integração entre ciência, planejamento ambiental e gestão de riscos climáticos e reforça o papel do Brasil na adoção de soluções baseadas na natureza.
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IGOR RODRIGUES HENUD é Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Dinâmica dos Oceanos e da Terra (UFF), desenvolvendo projeto com ênfase em adaptação e mitigação das mudanças climáticas, gestão territorial baseada em ecossistemas e soluções baseadas na natureza. Mestre em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros, com foco em mudanças climáticas, e experiência superior a 10 anos em conservação ambiental. Atua com serviços ecossistêmicos, carbono azul, geoprocessamento, modelagem ecossistêmica e análise quali-quantitativa. Possui experiência em pesquisa de campo (dendrologia, resíduos sólidos, ictiofauna e pesca artesanal) e em projetos de pesquisa e educação ambiental.
ABÍLIO SOARES GOMES é Licenciado em Ciências Biológicas e Bacharel em Biologia Marinha. Mestre em Zoologia e Doutor em Oceanografia Biológica. Atualmente é Professor Titular da Universidade Federal Fluminense, atuando em pesquisas sobre Ecologia de Sedimentos Marinhos e ensino de Ecologia Marinha.
Por Fernanda Nunes
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