HUAP em Foco: a toxicovigilância do CCIn-UFF em defesa da vida há mais de três décadas
Em seus 75 anos, o Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP), da Universidade Federal Fluminense (UFF), reafirma seu papel estratégico na assistência, no ensino, na pesquisa e na extensão em saúde pública. Entre as iniciativas que traduzem essa missão está o Centro de Controle de Intoxicações (CCIn), responsável por uma das áreas mais sensíveis e, muitas vezes, invisíveis do cuidado em saúde: a toxicovigilância.
Como uma estratégia ampla de vigilância em saúde, a toxicovigilância analisa e intervém sobre os efeitos das intoxicações e exposições químicas na população. Ela abrange desde intoxicações por medicamentos, drogas de abuso, produtos de uso doméstico, até acidentes com animais peçonhentos, produtos químicos industriais, plantas tóxicas e agrotóxicos.
Mais recentemente, o CCIn integrou a resposta do estado a grandes emergências químicas, como a crise de intoxicação por metanol. “Participamos da sala de crise da Secretaria de Estado de Saúde, avaliamos casos suspeitos, auxiliamos no fechamento do diagnóstico e evitamos tratamentos inadequados”, destaca.
Atuando desde o final da década de 1980, o CCIn do HUAP é o único Centro de Informação e Assistência Toxicológica do estado do Rio de Janeiro. Está integrado à Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (RENACIAT) e é reconhecido por organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, o serviço representa uma linha de frente fundamental na redução de agravos, sequelas e óbitos relacionados às intoxicações.
Segundo a médica Ana Claudia Lopes de Moraes, do Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP – UFF) e coordenadora do CCIn, o diferencial da toxicovigilância está na articulação entre assistência imediata e produção de conhecimento para o planejamento em saúde. “Essa é a estratégia em que coletamos informações sobre o que acontece no mundo real em relação às intoxicações e superdosagens. Lidamos com eventos agudos, mas também com dados que revelam padrões, tendências e riscos emergentes para a saúde pública”, explica.
Na prática, isso significa acompanhar os casos desde o primeiro contato, orientar a conduta clínica adequada e registrar informações que permitam identificar mudanças no perfil epidemiológico das intoxicações. “Esses dados não ficam restritos ao atendimento individual. Eles subsidiam decisões regulatórias, políticas públicas e estratégias de prevenção”, ressalta a docente.
O papel do CCIn no cuidado à população e no fortalecimento do SUS
Um dos eixos centrais da atuação do CCIn é o atendimento remoto por meio do Disque-Intoxicação, serviço gratuito cujo número está presente em rótulos de produtos químicos e bulas de medicamentos em todo o país. Por esse canal, a equipe orienta tanto a população quanto profissionais de saúde, funcionando como uma extensão qualificada da rede de urgência e emergência.
“Muitos dos contatos que recebemos envolvem ingestão de substâncias de baixa toxicidade, especialmente em crianças. Nesses casos, conseguimos orientar a observação domiciliar, acompanhar a evolução e evitar que a família vá desnecessariamente a uma emergência”, explica Ana Claudia. Segundo ela, essa atuação tem impacto direto no desafogamento do sistema de saúde ao reduzir filas e otimizar recursos.
Quando há risco real, o fluxo é inverso. “Nós não retardamos encaminhamentos. Ao contrário, direcionamos rapidamente para os serviços adequados, inclusive para polos específicos de soroterapia, no caso de acidentes com animais peçonhentos, por exemplo”, afirma.
Para os profissionais de saúde, o centro funciona como suporte técnico permanente. A equipe utiliza bases de dados internacionais, como o ToxBase, associadas à experiência acumulada desde os anos 1980. “Isso dá segurança para a tomada de decisão clínica e evita condutas inadequadas”, pontua a professora.
Ela cita como exemplo o manejo de intoxicações por benzodiazepínicos, remédios que atuam no sistema nervoso central comumente prescritos para uso como ansiolítico. “Existe um antídoto, o flumazenil, mas seu uso indiscriminado pode precipitar crises convulsivas em intoxicações mistas envolvendo medicamentos que podem levar a convulsões, comuns em tentativas de autoextermínio. Muitas vezes, o suporte clínico adequado é a melhor conduta, sem aumento de mortalidade ou tempo de internação”, explica.
Dados que salvam vidas e orientam políticas públicas
Cada atendimento realizado pelo CCIn gera informações epidemiológicas que alimentam a toxicovigilância do SUS. Os dados permitem identificar tendências e antecipar problemas de saúde pública.
Um exemplo emblemático é a mudança no perfil das tentativas de autoextermínio envolvendo produtos químicos. “Ao longo dos anos, observamos uma redução de uma divisão clássica do passado, entre homens usando principalmente agrotóxicos e mulheres, medicamentos. Hoje, o que mais nos preocupa é o aumento significativo das tentativas entre crianças e adolescentes, ou seja, mudança de perfil em relação a faixa etária”, alerta Ana Claudia. Segundo ela, esse fenômeno foi identificado pelo centro décadas atrás e hoje é amplamente reconhecido pela psiquiatria, influenciando diretamente políticas de saúde mental.
Outro marco histórico da atuação do CCIn foi o enfrentamento do uso ilegal do chamado ‘chumbinho’, um carbamato altamente tóxico comercializado clandestinamente. “Fomos pioneiros na identificação da gravidade do problema e na construção de protocolos de manejo. O protocolo nacional foi fortemente baseado na nossa experiência”, relembra a médica. A atuação do centro contribuiu para a redução expressiva da mortalidade associada a esse tipo de intoxicação em todo o país.
Formação transdisciplinar e compromisso com a vigilância ética e humana
Além da assistência e da vigilância, o CCIn é um espaço estratégico de formação. O centro capacita estudantes de medicina, enfermagem, farmácia, medicina veterinária, biologia e outras áreas da saúde ao oferecer uma vivência prática única no estado do Rio de Janeiro.
Foto: Ana Claudia de Moraes/CCIn-HUAP-UFF
“A toxicologia é essencialmente transdisciplinar. Nenhum profissional domina sozinho todos os aspectos envolvidos. Aqui, o conhecimento é construído coletivamente”, afirma Ana Cláudia. Essa experiência, segundo ela, marca profundamente a trajetória dos estudantes. “Muitos ex-alunos entram em contato até hoje para dizer o quanto o CCIn foi determinante na formação deles, o que muito nos orgulha como centro de controle de intoxicações, como produtores de dados, mas também como espaço de formação humana”, relata.
Apesar de desafios recentes como a dificuldade no funcionamento do serviço 24 horas e escassez de recursos financeiros e humanos, o compromisso com a vida permanece como eixo central do trabalho. “Atendemos diariamente mães angustiadas, pessoas em sofrimento psíquico, adolescentes e jovens em situações extremas. A toxicovigilância exige um olhar ético, cuidadoso, vigilante e humano”, finaliza.
Na celebração aos 75 anos do Hospital Universitário Antônio Pedro, a trajetória do Centro de Controle de Intoxicações reafirma o papel da universidade pública como agente ativo na proteção da saúde coletiva. Um trabalho muitas vezes silencioso, mas essencial, que transforma ciência em cuidado e vigilância em defesa da vida.
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Ana Claudia Lopes de Moraes é médica, pela Universidade Federal Fluminense (1993), Especialização em Medicina do Trabalho, Universidade Federal Fluminense (1997), Mestrado em Ciências – Saúde Pública – Área: Toxicologia Ocupacional e Ambiental, pela Fundação Oswaldo Cruz (1996), Especialização em Vigilância Ambiental em Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2003), e Doutorado em Saúde Pública e Meio Ambiente, Linha de Pesquisa “Avaliação de Riscos Ambientais”, pela Fundação Oswaldo Cruz (2010). Atualmente é médica toxicologista, Coordenadora Geral do Centro de Controle de Intoxicações da Universidade Federal Fluminense e médica do trabalho da Petrobras, atuando com foco em Gestão, Toxicologia (Ocupacional, Ambiental, Forense e Regulatória) e Saúde Ambiental. Tem experiência na área de Medicina do Trabalho e Higiene Ocupacional, Toxicologia Ocupacional, Ambiental e Clínica.
Por Fernanda Nunes
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