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Projeto da UFF abre portas no mercado de hotelaria para pessoas em vulnerabilidade social


Jackson e Micaele são pai e filha que, anos atrás, passaram por situações de vulnerabilidade social. Hoje, ambos são funcionários fixos em redes de hotéis de luxo em São Paulo. A oportunidade de formação e trabalho veio a partir do TRILHO (Trajetórias de Inserção Laboral em Hotelaria), uma ação de pesquisa e extensão da Faculdade de Turismo e Hotelaria da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Escola Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) que firma parceria com hotéis e ONGs.  

Ativa desde maio de 2024, a iniciativa nasceu com a ambição de transformar o cuidado e acolhimento em uma política concreta de inserção de grupos marginalizados no mercado de trabalho. A ideia é que pessoas em situação de rua tenham uma ocupação formal, com formação profissional, em uma área forte e constituída. Desse modo, os contemplados pelo projeto não apenas recebem uma renda imediata, mas também estabilidade e possibilidade de planos de carreira no contexto da hotelaria.

A coordenadora do projeto e professora do departamento de Turismo na UFF, Ana Paula Garcia Spolon, acredita que, embora seja um projeto simples de ser realizado em questões de estrutura, ainda encara desafios. “A proposta não é difícil: nosso objetivo é prover a formação a partir de cursos curtos para pessoas em situações de vulnerabilidade”, resume a professora.

Contextos em hotelaria

Inicialmente, a meta de Spolon era estabelecer um projeto que oferecesse moradia para as pessoas em situação de rua, o que, rapidamente, saiu do radar, dado o tamanho do desafio. Após conhecer Simone Gatti, diretora da Fica –  Organização Não Governamental (ONG) que atua pelo direito de moradia em São Paulo – os planos mudaram. “O principal desafio para esses grupos após receber um teto, é encontrar uma ocupação. Diante disso, traçamos uma rota possível para criar possibilidades para pessoas que já saíram das ruas”, relembra a coordenadora.

O mercado de trabalho em hotelaria é um terreno fértil para muitos projetos sociais voltados para populações minoritárias específicas. Durante a pandemia da Covid-19, por exemplo, muitos imigrantes foram incorporados ao setor devido à facilidade com línguas estrangeiras. “Os hotéis oferecem muitos projetos para a população negra, trans e para mulheres, por exemplo”, indica a professora. “As ações também geram visibilidade aos negócios deles.”

Primeiro treinamento do Programa TRILHO, no Hotel Intercontinental SP. Foto: Ana Paula Spolon

O diferencial do Trilho, porém, está na nova aliança formada entre os três parceiros: as ONGs, os hotéis e a universidade. Spolon destaca o compromisso da UFF em preparar e acompanhar as pessoas interessadas na iniciativa e, a partir disso, fica evidente a importância do projeto ter sido estruturado no contexto da educação pública, que conta também com a participação da ECA-USP, com a coordenação da professora Débora Cordeiro Braga. Dessa forma, é possível agregar bolsistas e outras formas de investimento, além do apoio financeiro e técnico das redes hoteleiras parceiras do Trilho e da ponte com as pessoas por meio da ONG.

“O projeto Trilho congrega todas as exigências de ensino, pesquisa e extensão da Educação Superior”, indica Débora Cordeiro Braga, coordenadora do programa na USP. “A proposta foi muito bem recebida, porque traz informações específicas do curso de Hotelaria para os alunos, que trocam experiências entre si e os professores. E também une um dos objetivos de desenvolvimento sustentável: o emprego digno. Além de atender as demandas dos hotéis de necessidade de mão de obra para funções operacionais.”

De acordo com Spolon, a participação no projeto é interessante para todas as frentes envolvidas: a universidade cumpre sua função social e forma alunos com novas perspectivas e sensibilidade; os hotéis recebem profissionais qualificados em cargos de primeiros postos e contam com apoio em processos de seleção e retenção dos funcionários; e as ONGs, por sua vez, passam a atuar em um nível ainda mais profundo de inclusão social.

Ao total, as universidades públicas e a organização Fica conseguiram o apoio de 11 empresas hoteleiras e 12 hotéis. “Nós não expandimos parcerias com mais hotéis, porque não tínhamos gente para trabalhar”, lamenta a professora. Ela encara como grande dificuldade as nuances de lidar com um público que não é familiarizado com os ambientes de trabalho formais. “Eles têm uma dificuldade muito grande de saltar da situação de vulnerabilidade social para a dinâmica da indústria hoteleira, que é absolutamente formal e exigente”, explica. 

Jackson Jesus Ferreira, beneficiário do Trilho, com supervisora no hotel em que trabalha. Foto: Ana Paula Spolon

Desafios e oportunidades do Trilho

Antes dos participantes entrarem no mercado de trabalho, a UFF oferece um repertório de formação. Até outubro de 2025, foi realizada a primeira etapa na cidade de São Paulo, com a implementação de testes e avaliações para os interessados. Segundo Spolon, os cursos duram algumas horas, pois os alunos são resistentes a uma carga horária extensa, devido à falta de costume com o ambiente de ensino.

A educação em formatos curtos e acessíveis é a melhor recebida por essa população – o cuidado com a linguagem, o conteúdo e a duração das aulas impactam na adesão das turmas, que recebem alunos com níveis de escolaridade baixos. A capacitação e educação desses grupos ocorre desde a introdução à hotelaria aos modos de comportamento em determinados locais.

“Usamos a palavra educar, porque a proposta vai além da formação técnica. Percebemos cada vez mais que as soft skills são até mais importantes”, ressalta a coordenadora. As habilidades de se portar em determinados ambientes e situações, de se dirigir e receber o outro, de se arrumar e conversar, as chamadas soft skills, ou habilidades interpessoais em português, são muito relevantes em ambientes e empresas que lidam diretamente com o público, sobretudo em hotéis, muitas vezes considerados “de luxo”.

Apesar de toda a estrutura do projeto, as dificuldades não hesitaram em aparecer logo no princípio. “Tivemos uma frustração gigantesca no primeiro ano, porque muitos  se candidataram, mas apenas duas pessoas estão trabalhando hoje”, conta Spolon. De início, 35 pessoas em situação de vulnerabilidade foram apresentadas ao projeto. Destas, 18 se interessaram pelas aulas, nove fizeram os treinamentos e duas pessoas, o pai Jackson Jesus Ferreira e a filha Mickaelly Ferreira, trabalham em redes hoteleiras de luxo em São Paulo, atualmente. A professora cita que cerca de 50% dos candidatos não seguiram no processo seletivo por desistência.

O que a coordenadora do projeto Ana Paula Spolon chama de “descarte de oportunidades”, ou seja, a recusa das vagas, ocorreu por diversos motivos: vergonha, medo, insegurança, falta de compromissos e mais. “O primeiro ano foi um período de aprendizado, um ano de entender que a educação é uma ferramenta transformadora e que pode mudar a vida dessas pessoas”, defende. “Foi uma oportunidade de verificar o quanto a parceria escola-empresa-ONG pode ser efetiva e de sucesso.”

Mickaelly Tamiris Ferreira, filha de Jackson e beneficiária do Trilho com supervisores no local de trabalho. Foto: Ana Paula Spolon

Na segunda fase, houve a reestruturação dos treinamentos e cursos: a cada seis meses o Trilho entrega um menu para os contemplados do projeto e para os hotéis parceiros, que podem escolher quais conteúdos querem aprender nas aulas seguintes. A próxima turma em janeiro deste ano, por exemplo, irá estudar Inglês e Hospitalidade e Acolhimento para Hotelaria, com a possibilidade de outros funcionários do hotel participarem – aqueles que, apesar de estarem no mesmo nível de ocupação, não chegaram ali com o apoio do Trilho.

“Nós oferecemos os módulos para nossos alunos, mas o hotel tem a liberdade para pedir determinados cursos”, conta Spolon. “Por exemplo, hoje, a Mickaelly trabalha como ajudante de cozinha, mas se o hotel quiser promovê-la  para supervisora, ela precisaria de um aprendizado em matemática para lidar com compra de materiais e controle de estoque. Com isso, eu ofereço um  módulo que atenda  às necessidades da vaga em questão”, explica a professora.

“Temos agora uma apostila e uma cartilha que são iguais. A primeira  tem mais letras e a segunda tem mais figuras, para ajustar à capacidade de leitura dos alunos, respectivamente”, detalha a professora. “Isso já é um resultado da segunda fase e das universidades como provedoras”, ressalta. O material didático oferecido em ambos formatos foi produzido pelos alunos da UFF, bolsistas de extensão do projeto. 

Na USP, a aluna bolsista também já atuou diretamente no processo com o Fica e já recebeu mais cinco alunos voluntários. “Durante o treinamento, os estudantes  davam apoio e suporte para as pessoas que estavam sendo indicadas para os hotéis”, conta Débora Braga. “Foi muito construtivo, os alunos se envolveram de forma autônoma e ficaram muitos satisfeitos com a experiência”.

A outra fase do projeto será realizada a partir de fevereiro de 2026 em hotéis do Rio de Janeiro com a consolidação de saberes e sistematização de fluxos. “Nós queremos também que nesta outra parte conste outras ações. Agora, o Trilho deixa de ser projeto e passa a ser programa”, explica Spolon. O objetivo para as fases seguintes é oferecer novas atividades e fechar parcerias com ainda mais ONGs, para que tenham mais beneficiários. “Temos vagas, mas não temos trabalhadores”, explica.

No começo, a coordenação mapeou 32 vagas nas áreas de alimentos e bebidas, hospedagem e manutenção dos hotéis, entretanto, não encontraram pessoas para ocupá-las. Hoje, o processo foi invertido: ao encontrar uma pessoa interessada em trabalhar, o projeto analisa o perfil e solicita ao hotel uma vaga correspondente. “A hotelaria é uma indústria que tem muita mudança de mão de obra. As pessoas percebem que é um trabalho pesado em termos de escala, de exigência com o visual, então é difícil que permaneçam na área”, explica. Concomitantemente, é uma área de grande expansão: cada vez que uma cidade se fortalece como destino turístico, mais oportunidades de emprego são criadas com a abertura de novos hotéis. 

As ocupações nos hotéis, apesar de apresentarem desafios, podem oferecer um plano de carreira para os funcionários, explica a professora. Foto: Pexels

Futuro do Trilho

“Durante os próximos meses, a iniciativa deixa de ser uma atividade de extensão, como inicialmente nasceu o Trilho, e passa a ser um programa  de extensão, com o oferecimento de projeto, curso e evento”, sintetiza a professora. “Vamos abrir na universidade como cursos livres que podem ser feitos pela comunidade, porque hoje eles são oferecidos especificamente para os hotéis parceiros. Se o dono de um quiosque da UFF quiser fazer um curso de higiene e manipulação de alimentos, por exemplo, e quiser aderir ao Trilho para buscar uma oportunidade melhor, ele pode fazer isso pela universidade”, acrescenta. Além disso, o projeto também realizará eventos de divulgação.

No longo prazo, o sonho de Spolon é expandir o projeto para todas as universidades públicas do Brasil que oferecem a formação em Hotelaria. “Mas como lidamos com muita sensibilidade da seleção de parceiros organizados, da sociedade civil organizada e ONGs, esse é o calcanhar de Aquiles do projeto”, conta. “O nosso desafio é encontrar instituições engajadas que consigam identificar essa população para ocupar essas vagas.”

Além das coordenadoras na UFF e USP, também fazem parte da ação os professores Lúcia Silveira, Ari Fonseca Filho e Aguinaldo Fratucci (UFF) e Mariana Bueno (EACH-USP). Kamille Kali Moura, da faculdade de Hotelaria na UFF, e Júlia Nicolau, de Turismo na USP, são as bolsistas do projeto.

Para mais informações e novas parcerias para viabilizar a ampliação do Trilho, entre em contato com a professora Ana Paula Spolon pelo email anapaulaspolon@id.uff.br.

Ana Paula Garcia Spolon é professora associada da Faculdade de Turismo da Universidade Federal Fluminense (FTH-UFF). É doutora e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). É Especialista em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) e graduada em Letras pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e em Hotelaria pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC-SP).

 

Por Letícia Souza.

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