Revistas em quadrinhos fortalecem educação das relações étnico-raciais no cotidiano escolar
Foto: Freepik
As revistas em quadrinhos costumam ser associadas às histórias de heróis e de personagens que marcaram a infância de diferentes gerações. No Brasil, é comum que o primeiro contato com a leitura seja por meio de gibis, como os da Turma da Mônica, por exemplo. Ao considerar o seu forte caráter educativo, um estudo da Universidade Federal Fluminense (UFF) confere mais uma funcionalidade às histórias em quadrinhos (HQs): a educação das relações étnico-raciais. O debate ganha destaque no dia 30 de janeiro, data que celebra o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos e reforça a forte presença cultural do formato, que vai além do entretenimento.
A tese de doutorado “Cotidiano, escola e Graphic novel: O papel da mídia no fortalecimento da Educação para Relações Étnico-Raciais” investiga como a mídia, em especial as graphic novels – formato que apresenta quadrinhos a partir de uma narrativa mais longa –, pode contribuir para o fortalecimento da educação antirracista, sobretudo na formação inicial de professores do Curso Normal. Defendida no Programa de Pós-Graduação em Mídia e Cotidiano (PPGMC/UFF), a pesquisa é de autoria da doutora Fernanda Pereira da Silva, sob orientação da professora da Faculdade de Educação, Walcéa Barreto Alves.
O estudo parte da compreensão de que a vida escolar é atravessada por diferentes narrativas, além de ser um espaço em constante diálogo com a mídia. A ideia é analisar de que forma os sentidos sobre raça, identidade e pertencimento são produzidos ou excluídos no dia a dia e avaliar a inserção desse debate a partir da leitura de HQs que abordam a cultura afro-brasileira em sala.
“A escola não está isolada do que circula na mídia. Os estudantes chegam atravessados por essas narrativas, e isso interfere diretamente na forma como eles constroem sentidos sobre relações raciais”, conta Fernanda Pereira.
Graphic Novels como mídia educativa
A escolha das HQs como objeto central da pesquisa está ligada diretamente à consolidação do formato como meio capaz de unir imagem e texto e abordar, de maneira sutil, temas complexos de teor social, histórico e político. O gênero costuma apresentar narrativas mais longas e voltadas para públicos diversos, o que amplia seu potencial de uso em contextos educativos. No ambiente escolar, as narrativas midiáticas possuem um poder além da circulação, elas moldam práticas, relações sociais e processos de aprendizagem.
A análise avança para o campo pedagógico a partir de um trabalho de campo com estudantes do Curso Normal – formação de nível médio que prepara para atuar na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental. O foco passa a ser a formação inicial de professores e a forma como esses futuros docentes compreendem a educação das relações étnico-raciais e como incluem o tema no planejamento escolar. “Eu quis ir para a prática, para o campo. Queria entender como os estudantes do Curso Normal, que estão se formando para ser professores, pensam a aplicação da educação das relações étnico-raciais no plano educacional, como e se pensam em abordar a temática em sala de aula”, explica Fernanda Pereira.
Graphic novels trabalhadas em sala – “Carolina”, “Cumbe” e “Angola Janga”.
O tema também possui relação com a trajetória acadêmica da autora. No mestrado em Relações Étnico-Raciais, a pesquisadora analisou a representatividade de super-heróis negros e super-heroínas negras nas histórias em quadrinhos e observou os limites e contradições dessas produções no mercado editorial para entender se realmente existia uma representatividade positiva ou se era só um produto criado para comercialização. Para a nova tese, a pesquisadora utilizou graphic novels distribuídas pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD Literário), como Carolina, Cumbe e Angola Janga. As obras apresentam narrativas centradas na resistência negra e na luta contra a opressão, rompendo com abordagens que reduzem a história da população negra apenas à escravidão como sofrimento. “Essas graphic novels contam a história do povo negro a partir da perspectiva da luta, da resistência. Não é outra pessoa contando a história do povo escravizado, é a narrativa construída a partir desse lugar”, explica.
O apagamento do debate racial na formação de professores
O artigo traz como pauta a Lei 10.639/03, sobre ensino de história e cultura afro-brasileira. A lei foi promulgada há mais de 20 anos, em janeiro de 2003, com o objetivo de combater o racismo nas escolas e ser um instrumento fundamental para garantir que essa história seja abordada de forma precisa no currículo escolar. De acordo com uma pesquisa do Geledés Instituto da Mulher Negra e do Instituto Alana, a resolução não é cumprida em 71% dos municípios brasileiros.
A investigação da UFF busca compreender se, e como, o debate racial atravessa o currículo e o cotidiano dos futuros docentes. Fernanda Pereira observa que, apesar da existência da lei, ainda há lacunas significativas na formação docente. “Muitos futuros professores chegam à sala de aula sem se sentirem preparados para trabalhar a questão racial. Isso não acontece por acaso, mas está ligado à escolhas curriculares, a conteúdos que são inseridos ou omitidos durante a formação”, afirma a doutoranda.
Um dos principais achados da pesquisa diz respeito aos silêncios institucionais em torno da educação das relações étnico-raciais na formação inicial de professores. De acordo com a pesquisadora, o debate racial costuma ser restrito a datas comemorativas, como o mês de novembro, sem uma abordagem contínua e estruturada ao longo do ano letivo. Frente a isso, muitos alunos reconhecem a importância do debate sobre a questão racial, mas não possuem a vivência de observar isso na prática ao longo do ano nas escolas.
Alunos em contato com as graphic novels. Foto: Jean Barreto.
A metodologia da pesquisa contou com um grupo focal onde Fernanda direcionou perguntas a um grupo de 13 alunos voluntários. Os resultados evidenciam a lacuna na formação inicial de professores no que diz respeito à educação antirracista. Ao serem questionados se se sentiam preparados, a partir do currículo escolar, para aplicar uma educação das relações étnico-raciais na prática, todos os estudantes participantes responderam negativamente.
Para a professora Walcéa Barreto, tais situações refletem o racismo estrutural presente nas instituições educacionais e a falta de letramento racial na formação docente: “A lei prevê a educação das relações étnico-raciais, mas, na prática, isso ainda é um desafio muito grande. Muitas vezes aparece de forma pontual, por meio de projetos, mas não como uma cultura antirracista ao longo do ano. Quando o debate racial não aparece de forma consistente na formação de professores, isso se reflete no cotidiano escolar. O racismo institucional se manifesta justamente nos vazios, nas ausências naturalizadas”, pontua.
A intervenção pedagógica
O início do diálogo foi marcado pela palestra “Negritude, Poderes e Heroísmo – Estudos sobre Representação e Imaginários nas Histórias em Quadrinhos”, que trabalhou a reflexão crítica dos alunos e professores sobre o tema. O resultado da pesquisa pode ser visto posteriormente, principalmente durante o processo dos debates, como uma observação participante. A análise foi feita em uma turma de segundo ano do ensino médio, dos quais 95% eram negros ou pardos. Fernanda identificou experiências de violência racial, agressões verbais e práticas institucionais que minimizam ou invisibilizam o problema: “A maioria dos estudantes que eu entrevistei eram negros. Eles sabem o que é racismo porque vivem isso no cotidiano. Teve relato de agressão verbal, de violência racista na escola, que a instituição tratava apenas como uma briga entre alunos.”
Palestra de apresentação do tema. Foto: Jean Barreto.
O objetivo não foi apenas observar a realidade escolar, mas provocar reflexões a partir da inserção das graphic novels no processo formativo dos futuros professores. “Foi uma pesquisa com uma intencionalidade diagnóstica, mas também interventiva. A ideia era apresentar esse material aos futuros professores e provocar neles a reflexão sobre como isso poderia entrar no planejamento docente no futuro”, explica Walcéa Barreto.
É a partir desse ponto que o trabalho dialoga com os estudos desenvolvidos no PPGMC-UFF, ao investigar como determinadas narrativas midiáticas atravessam a vida cotidiana e o espaço escolar. Segundo a orientadora, é fundamental reconhecer a mídia como um elemento constitutivo da vida social e educacional. Para ela, não se trata apenas de inserir recursos midiáticos na escola, mas de compreender como eles participam da produção de sentidos no cotidiano.
“As graphic novels são entendidas como uma mídia que pode ser vista como uma ferramenta contra-hegemônica, capaz de fazer transparecer o racismo estrutural e de provocar reflexões críticas sobre a história, a escravidão e as formas como esses processos ainda refletem na sociedade brasileira. Essa mídia atravessa os processos de significação e as relações socioculturais e está presente na forma como os sujeitos constroem as visões de mundo, as identidades e interações. Por isso, pensar a educação das relações étnico-raciais sem considerar a mídia é ignorar uma dimensão fundamental do cotidiano escolar”, afirma.
A tese surge como uma importante contribuição para os estudos raciais no campo da comunicação e da educação e demonstra como as práticas pedagógicas podem apontar resoluções para o problema social, que segue oculto no ambiente escolar. A pesquisa demonstra que iniciativas como a leitura e a mediação crítica de graphic novels, muitas delas já disponibilizadas pelo governo federal por meio do Programa Nacional do Livro e do Material Didático – PNLD, podem se tornar aliadas na promoção de uma educação antirracista.
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Fernanda Pereira da Silva tem Doutorado em Mídia e Cotidiano(UFF); Mestrado em Relações Étnico-Raciais pelo Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ); MBA em Gestão de Projetos pela Universidade Veiga de Almeida(UVA); Especialização em Mídias na Educação pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); Especialização em Gestão de Educação a Distância pela Universidade Federal Fluminense do Rio de Janeiro (UFF); Especialização em Comunicação Empresarial pela Universidade Cândido Mendes (UCAM). Professora graduada em Licenciatura em Artes Visuais (UNIGRANRIO) e em Análise de Sistemas da Informação (UNESA). Servidora da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro.
Walcéa Barreto Alves é Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF/Niterói – RJ). Professora do Programa de Pós-graduação em Mídia e Cotidiano/UFF. Líder do Núcleo de Estudos em Comunicação e Educação, Etnografia e Representações Sociais (NECEERS/UFF/CNPq). Integrante da Comissão Editorial da Revista Aleph Online (UFF). Graduação em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2000), Mestrado em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2003), Doutorado em Educação pela Universidade Federal Fluminense (2012) e Pós-Doutorado pelo Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2014). Experiência acadêmica e profissional nas áreas de Educação e Psicologia, dentro das seguintes temáticas/ áreas de atuação: Didática, Etnografia, Psicologia da Educação, Representações Sociais e Tecnologias Educacionais.
Por Alícia Carracena.
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