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UFF produz documentário sobre escravidão por perspectiva negra com investimento internacional


A data 28 de janeiro é marcada pelo Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo. Apesar do esforço de conscientização, o Brasil bateu recorde de denúncias de ofícios em condições análogas à escravidão em 2025: foram 4.515 relatos ao Disque 100 no período de um ano, de acordo com os dados divulgados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHD). Frente ao alarmante número, o projeto Representing the Undead Past of Slavery: Global, National and Local Contestation and Co‑production, em produção pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com instituições e universidades estrangeiras, busca debater as consequências da escravidão e combater com história casos como esses.

O longa-metragem vai receber, ao longo das fases de produção, mais de R$18 milhões de subsídios da instituição britânica Arts and Humanities Research Council (AHRC), que pertence ao UK Research Innovation. “Esse é um projeto coletivo que aborda a escravidão no ocidente em várias facetas”, conta a pesquisadora e professora do departamento de História da UFF, Ynaê Lopes dos Santos. “Pensamos a escravidão negra não só do ponto de vista do desenvolvimento capitalista, mas sobretudo das memórias e das lutas por reparação histórica dos sujeitos descendentes de escravizados”.

De acordo com a Ynaê, além de artigos e análises comparadas e correlatas sobre as diferentes formas de representar o passado escravista feitas por diferentes pesquisadores, cada país envolvido produzirá um documentário sobre o tema. “No Brasil, o longa-metragem, com previsão para a estreia em 2028, será feito junto ao Instituto Pretos Novos (IPN) e o Instituto Cultural Cultne”, uma organização sem fins lucrativos que possui o maior acervo de audiovisual negro da América Latina.

As histórias do Brasil

O longa-metragem brasileiro terá como foco a história do Cais do Valongo. Esse lugar na Zona Portuária do Rio de Janeiro, denominado desde 2017 como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) é considerado o único vestígio da chegada de escravizados na América. “O reconhecimento do Valongo é um ponto crucial para o debate nacional e internacional da escravidão no Brasil”, pontua a professora. “Vamos focar no espaço, nos sujeitos que rondam o passado do maior porto de desembarque de africanos escravizados e focar também nas pessoas que historicamente fizeram com que hoje nós possamos reconhecer o Valongo como um lugar de memória e luta negra brasileira”.

A exposição permanente no Cais do Valongo, com curadoria da professora, foi inaugurada em 2022, próximo às obras de valorização da região. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Os países europeus que estiveram historicamente vinculados ao tráfico transatlântico de africanos escravizados, como Portugal, Espanha e Inglaterra, são considerados desenvolvidos. Grande parte deste desenvolvimento, porém, está vinculado com o capital advindo da escravidão negra nas Américas, explica Ynaê. “Consideramos que existe uma má compreensão proposital do que é o racismo e, consequentemente, do peso que a escravidão teve na formação do Ocidente”, conta a pesquisadora. “Como esse é um projeto internacional que analisa de maneira correlata as diferentes realidades, ele tem como plano de fundo o pressuposto de que a escravidão ordenou e organizou o modo como conhecemos o ocidente, inclusive o fato de não sabermos isso.”

O filme também prevê revelar as engrenagens de funcionamento do racismo, por meio da análise da escravidão e a partir do ponto de vista de pessoas negras. Embora o caráter de violência seja um aspecto estrutural do próprio desse sistema, o objetivo não é mostrar corpos negros sendo violentados, mas, sim “ter a certeza que a luta contra a escravidão tem o mesmo tempo de existência da escravidão”, indica Ynaê. “Por mais que haja um silenciamento em relação a esses sujeitos em diferentes momentos da história, queremos escutar as vozes e jogar luz nas memórias sobre o passado escravista”.

Ao compreender e relembrar o passado por meio de uma perspectiva de resistência, o documentário também ajuda na “materialidade da escravidão”, dado que a história será contata e construída, utilizando artefatos encontrados na escavação do Cais do Valongo que estão em exposição no  Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana do Rio de Janeiro (LAAU). “Trabalhar com instituições museais significa que não tem como fugir do caráter material da organização econômica da escravidão no Ocidente”, explica Ynaê. 

O Valongo representa, hoje, um marco da violência contra a humanidade e de resistência. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

As religiões de matrizes africanas, como a Umbanda e o Candomblé, utilizam-se de objetos para representar proteção, conexão com o divino e identificação – neste caso, os colares chamados de guias ou fios de contas. “Quais histórias eu consigo contar a partir desses artefatos?”, questiona a pesquisadora. Em parceria com o IPN, o documentário terá como objeto de análise as ossadas, guias e outros itens encontrados de pessoas escravizadas ao longo do tempo. Artigos como esses podem revelar quem são ou, pelo menos, de onde vieram parte dos escravizados e garantir uma dimensão histórica da formação do povo brasileiro. 

Condições da escravidão: antes e agora

A Lei Áurea, assinada em 1888, aboliu o sistema de escravidão no Brasil. Esse fim, entretanto, concretizou-se somente no papel. Surge o entendimento, portanto, de que compreender os moldes da escravidão do passado pode contribuir para o combate ao trabalho análogo à escravidão no presente. “A escravidão moderna é uma escravidão racializada. Encontramos muitas pessoas negras nessas condições, porque há um olhar que não foi alterado de que elas se contentam com qualquer coisa”, observa Lopes. 

O número de denúncias de trabalho análogo a escravidão registado pelo MDHC é o maior da série histórica. Foto: MPT/MG

Portanto, de acordo com Ynaê, um dos resquícios vinculados à escravidão é olhar de submissão frente às pessoas negras. Um exemplo são os casos recorrentes com empregadas domésticas, nos quais enfrentam situações exploratórias e vexatórias, mas são “consideradas da família”.

“Eu tenho certeza que um conhecimento mais denso do que foi a escravidão é uma das áreas mais efetivas para o combate da escravidão moderna”, afirma a pesquisadora. “Trazer essa violência a partir da enunciação negra, que pressupõe um protagonismo e uma agência negra, é fundamental para combater os milhares de estereótipos que existem desde o passado até o presente”.

O intuito da professora é que a produção do documentário aconteça junto ao processo formativo de jovens descendentes de escravizados, com o objetivo de contar a história e a luta desse povo a partir de uma perspectiva negra. “Vamos fazer uma chamada pública para atrair jovens que queiram participar e que tenham interesse, de alguma maneira, se especializar em diferentes aspectos da produção audiovisual”, detalha Ynaê.

O documentário é uma iniciativa liderada pela UFF e conta com a participação de organizações comunitárias e produtoras de cinema colaborativo. São elas: a University of Bristol, a Universidade de Gana, o International Slavery Museum de Liverpool, o Ghana Museums and Monuments Board, o Pitt Rivers Museum, da University of Oxford.

O passado presente

“A pesquisa também parte do pressuposto de que é fundamental explicar como o racismo estruturou o passado e segue estruturando a sociedade brasileira”, especifica a professora. De acordo com ela, o racismo estrutural faz parte da história do país.

Em outubro do último ano, o Ministério Público da Bahia apresentou os resultados de uma pesquisa arqueológica realizada na Santa Casa da Misericórdia, em Salvador: ali foram encontrados mais de 100 mil corpos de pessoas escravizadas no estacionamento da Pupileira. À época, mesmo com o descobrimento dos vestígios, o “Cemitério de Escravizados” ainda era usado pelo público para guardar os automóveis.

Pesquisas da UFBA descobriram o cemitério de escravizados no estacionamento do Complexo da Pupileira, em Salvador. Foto: Silvana Olivieri

Os reflexos e frutos da escravidão ainda definem diversos âmbitos nos dias atuais. Segundo a pesquisadora, a ideia do passado presente aparece em estudos ao redor do mundo sobre a escravidão e mostra como os fatos de séculos atrás ainda possuem desdobramentos hoje. “A categoria de estudos dos ‘afropessimistas’ defende que não existe a possibilidade de pensar a experiência negra nas Américas esquecendo da escravidão, porque os resquícios dela ainda determinam a vida de todos”, conta Ynaê. A violência do racismo contra pessoas negras e os privilégios usufruídos por pessoas brancas são exemplos que, mesmo com o fim legal da escravidão, os sintomas persistem em todas as sociedades.

 

Ynaê Lopes dos Santos é professora do departamento de História da América na Universidade Federal Fluminense (UFF). É mestre e doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e possui bacharelado e licenciatura também pela USP. É Jovem Pesquisadora do Nosso Estado – FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado no Rio de Janeiro), Bolsista de Produtividade CNPq e Vice Coordenadora do GT Afro-Américas da ANPUH (Associação Nacional de História). 

Por Letícia Souza.

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