UFF Responde: Medicina Integrativa
A medicina integrativa vem ganhando cada vez mais espaço dentro dos métodos de cuidado. Em 23 de janeiro celebra-se o dia internacional dessa prática que se destaca por considerar o indivíduo de forma integral ao englobar diversos aspectos, dos físicos aos mentais, durante o tratamento. A abordagem combina medicina convencional e Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), o que amplia a visão de cuidado em saúde e reconhece como as diferentes dimensões podem influenciar sobre o bem-estar. Dessa forma, a medicina integrativa atua de maneira complementar, valorizando os avanços científicos da biomedicina e as práticas que promovem qualidade de vida.
No Brasil, a discussão sobre esse tipo de medicina se fortalece a partir do Sistema Único de Saúde (SUS), que reconhece as PICS por meio da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC). Quando utilizadas de forma conjunta e com orientação profissional, essas práticas podem contribuir para a promoção da saúde, a prevenção de doenças e a melhoria da qualidade de vida. No entanto, a circulação de informações falsas e o uso sem acompanhamento profissional ainda representam desafios, tornando essencial o acesso a informações que possuem respaldo científico.
Na Universidade Federal Fluminense (UFF), ações voltadas ao compartilhamento de informações seguras sobre saúde surgem como forma de solucionar esses problemas. Um exemplo é o projeto de extensão “Práticas Integrativas e Complementares em Saúde: divulgação de evidências científicas para a população”, que tem como objetivo aproximar a sociedade do conhecimento científico sobre a medicina integrativa e as PICS. A iniciativa busca combater a desinformação, esclarecer os benefícios e contribuir para a promoção de um cuidado em saúde mais consciente. O projeto é coordenado pela professora da Faculdade de Farmácia da UFF, Gleyce Moreno Barbosa, que participa desta edição do UFF Responde.
- O que é medicina integrativa? Quais são as principais práticas?
Consiste em uma abordagem de cuidado em saúde que combina a racionalidade biomédica e o tratamento com as medicinas tradicionais e complementares, com a finalidade de promover saúde e bem-estar de forma individualizada. Além disso, considera a integralidade nos aspectos físicos, mentais, emocionais, sociais e ambientais da realidade de cada ser. É reconhecida pela Organização Mundial de Saúde, que recomenda o fortalecimento das evidências científicas e a integração de forma segura e eficaz nos sistemas de saúde.
Do ponto de vista do profissional de saúde, essa medicina se propõe a verificar as melhores abordagens, práticas e tratamentos a fim de ampliar a qualidade de vida e os benefícios para o indivíduo, baseada em uma compreensão mais aprofundada do quadro clínico do paciente. No que diz respeito ao paciente, possibilita ampliar a percepção e a consciência de cada um sobre a própria responsabilidade no processo de manutenção da saúde.
No Brasil, o sistema médico vigente e hegemônico estabelecido nas unidades de saúde é chamado de “medicina convencional”, que abrange a biomedicina e o tratamento alopático. Atualmente também temos o reconhecimento das medicinas tradicionais e práticas complementares, e podemos citar como exemplos plantas medicinais e fitoterapia, acupuntura, auriculoterapia (que é bem acessível quando pensamos em aplicabilidade para o SUS), homeopatia, aromaterapia, yoga, meditação, entre outras. Cada prática tem as suas especificidades e particularidades, mas apresentam características em comum, como promover benefícios para a mente e o corpo físico. Devido à extensão territorial de nosso país, existem práticas que se destacam mais de acordo com as particularidades de cada região.
- Qual é a diferença entre medicina integrativa, PICS e terapias alternativas?
O termo Práticas Integrativas e Complementares em Saúde foi estabelecido aqui no Brasil, a partir da aprovação da PNPIC no SUS em 2006, que incluiu práticas que já apresentavam alguma inserção no SUS. Posteriormente foi complementada, totalizando hoje 29 PICS reconhecidas pelo Ministério da Saúde, como acupuntura e aromaterapia. Destaco que a maioria dos profissionais de saúde que atuam com PICS compreendem que o caminho mais adequado de fato é a medicina integrativa, que combina o melhor das duas abordagens, para beneficiar o paciente. É importante ressaltar que as medicinas tradicionais devem ser valorizadas, assim como a medicina convencional.
Já o termo “terapias alternativas” foi bastante utilizado no Brasil antes do estabelecimento da PNPIC, quando iniciou-se a utilização abrangente do termo PICS. Atualmente, o termo está em desuso, pois transmite uma ideia errônea de utilizar uma medicina ou prática como algo alternativo ou que possa substituir a medicina convencional. Portanto, o caminho mais adequado hoje é o indivíduo ser acompanhado de forma concomitante por profissionais da medicina convencional e das PICS, que utilizarão estratégias para otimizar o uso racional de medicamentos e proporcionar qualidade de vida e bem-estar.
Medicamento homeopático. Foto: Freepik
- Em quais contextos clínicos a medicina integrativa tem apresentado melhores resultados?
Existem casos de sucesso conhecidos, como, por exemplo, o uso de homeopatia para alergias e quadros respiratórios durante a infância; a utilização da acupuntura para alívio de dor; e as práticas mente-corpo, como yoga e Tai Chi Chuan que contribuem na redução de quadros de ansiedade.
Outra prática que está em estudo é o mindfulness, que integra a meditação com ferramentas direcionadas à atenção plena. Por ser uma prática com um protocolo bem definido e padronizado, tem gerado evidências científicas relevantes.
Além disso, a oncologia integrativa merece destaque. Para pacientes oncológicos, a medicina convencional sempre será a primeira linha de tratamento e se baseia na seleção da melhor estratégia entre os recursos disponíveis (como quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e cirurgia). Nesse mesmo contexto, existem evidências científicas de que as PICS, como a auriculoterapia, contribuem no manejo mais adequado de efeitos colaterais do tratamento, como náuseas e dor, ampliando a qualidade de vida e bem-estar destes pacientes. Este é um exemplo muito claro de como atua a medicina integrativa, combinando a medicina convencional com as PICS.
- Como a medicina integrativa pode oferecer um olhar ampliado para o paciente, nos aspectos físicos, emocionais e sociais?
O olhar ampliado é inerente a sua prática, por contemplar a integralidade do indivíduo em seus aspectos físicos, emocionais, mentais, sociais e ambientais. Diferente da medicina convencional, que atualmente está compartimentada em especialidades que, em alguns casos, desconsideram as intervenções realizadas por especialidades complementares, a medicina integrativa compreende a integralidade do ser em seus diferentes aspectos a partir de suas bases, entendendo que as emoções podem impactar no corpo físico, e o contrário também ocorre. As bases de conhecimento das medicinas tradicionais já sugerem as relações presentes entre os diferentes campos (físico, mental e emocional), compreendendo a integralidade para além do corpo físico.
Outro destaque é que as PICS promovem um cuidado atento e acolhedor, trazendo autonomia, empoderamento e responsabilidade no processo de cuidado em saúde, possibilitando a ampliação da consciência sobre a sua parcela de responsabilidade em relação à própria saúde. Muitas PICS incentivam a adoção de bons hábitos diários — sono, alimentação adequada e individualizada, realização de exercícios físicos e de práticas mente-corpo e relações sociais saudáveis — para a manutenção do equilíbrio e da saúde. Os grupos que atuam nesta área esperam que a maior oferta das PICS no SUS amplie a promoção da saúde por meio deste olhar integral e possibilite o reconhecimento precoce de sintomas, favorecendo o manejo adequado na fase inicial e a qualidade de vida do paciente, apesar dos desafios relacionados ao desconhecimento da população, ao acesso a informações equivocadas e a fatores culturais, sociais e econômicos.
- Quais são os riscos do uso dessas práticas sem orientação profissional adequada?
Alguns exemplos são a utilização inadequada de plantas medicinais pode gerar efeitos adversos ou interações com outros medicamentos. A acupuntura exige conhecimento adequado do profissional em relação à inserção e profundidade das agulhas e a homeopatia depende da manipulação correta, baseada na Farmacopeia Homeopática da ANVISA, em que o treinamento é essencial para garantir a qualidade, segurança e eficácia dos medicamentos. Na UFF, a Farmácia Universitária realiza a manipulação de medicamentos homeopáticos, além de alguns fitoterápicos e florais de Bach.
Outro risco é o uso de óleos essenciais na aromaterapia, que apresentam elevada concentração de componentes e exigem cuidados e diluições adequadas, pois o uso indiscriminado pode gerar riscos à saúde. Algumas PICS utilizam medicamentos, enquanto outras utilizam produtos para a saúde que não se enquadram como medicamentos, o que implica requisitos regulatórios diferentes. Assim, a recomendação é que as PICS sejam realizadas com acompanhamento profissional, mesmo quando destinadas ao autocuidado, pois o profissional é capaz de avaliar e recomendar as ferramentas mais adequadas para cada caso.
A formação adequada do profissional e o uso das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) com orientação profissional são fundamentais. No Brasil, algumas PICS contam com cursos de formação bem estabelecidos, em nível de graduação ou especialização, enquanto outras possuem diretrizes definidas por associações, e há práticas que ainda não dispõem de padronização formativa. Uma ação contrária envolve riscos, já que essas práticas não estão isentas de possíveis efeitos colaterais, o que reforça a necessidade de uso responsável e com acompanhamento por profissional devidamente capacitado.
Extensionistas do PICS-UFF durante o evento Simplesmente Mulher. Foto: Arquivo Pessoal.
- Como funciona o programa “Práticas Integrativas e Complementares em Saúde: divulgação de evidências científicas para a população”, sob sua coordenação, e qual é o seu principal objetivo?
O projeto surgiu devido à necessidade de expandir e compartilhar informações sobre PICS e suas evidências científicas. A iniciativa representou um movimento importante na Faculdade de Farmácia ao permitir ampliar o acesso sobre estas informações para os estudantes e criar a disciplina optativa “Introdução às Práticas Integrativas e Complementares em Saúde”.
O principal objetivo do projeto é a divulgação científica no tema PICS, com linguagem acessível e inclusão das respectivas referências. Portanto, os materiais divulgados apresentam caráter informativo e educativo, e não representam recomendações de uso e/ou aplicação. Ao longo do tempo observamos a necessidade contínua de aprimorar e atualizar o formato de divulgação científica devido às mudanças de alcance nas redes sociais, principalmente. Também entendemos que é necessário extrapolar o universo da comunidade acadêmica e daqueles que estudam e praticam as PICS para ampliar o alcance da população que ainda desconhece as práticas, e não busca esse direito junto ao SUS por meio dos canais de controle social.
Acesse aqui o blog, Instagram e Facebook do projeto.
- De que maneira o projeto age para combater a desinformação sobre práticas integrativas e medicina integrativa?
O projeto divulga informações sobre Práticas Integrativas e Complementares da Saúde (PICS) baseadas em evidências científicas, além de divulgar informações sobre o que são as práticas e periodicamente atualizações sobre a legislação vigente. O principal objetivo é a divulgação científica que foi iniciada no ano de 2019, em período anterior à pandemia, quando se ampliou consideravelmente a divulgação científica em redes sociais.
Em 2025, foi publicado um artigo com o relato da experiência do projeto de extensão. Também fizemos a divulgação de um e-book, que pode ser solicitado neste formulário, com a compilação das evidências científicas divulgadas pelo projeto.
A nossa equipe é formada predominantemente por estudantes de graduação e conta com docentes da UFF (Leandro Rocha, Bettina Ruppelt, Tereza Leitão, Fátima Helena do Espírito Santo) e colaboradoras externas (Luciana Fernandes, Andréa Souza, Rúbia Patzlaff), que possuem formação em PICS e doutorado ou pós-doutorado na área. Os estudantes de graduação são responsáveis pela elaboração dos materiais para divulgação, que passam por uma revisão criteriosa para que possam ser divulgados de forma correta.
Gleyce Moreno Barbosa é professora da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal Fluminense. Doutora em Ciências Farmacêuticas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, concluído em dezembro de 2015. Possui graduação em Farmácia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2008), mestrado em Ciências Farmacêuticas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2011), especialização em Homeopatia pelo Instituto Hahnemanniano do Brasil (2013). Atua em projetos com Práticas Integrativas e Complementares em Saúde há 20 anos, desde a época que trabalhava como técnica de laboratório na Faculdade de Farmácia da UFRJ. Na Faculdade de Farmácia da UFF realiza ensino, pesquisa e extensão na área de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde e na área de Cosméticos e Tecnologia Farmacêutica.
Por Alícia Carrecena.
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