Pesquisas da UFF desenvolvem biotécnicas reprodutivas que visam o bem-estar dos animais
A produção de leite, carne, pele e lã envolve procedimentos reprodutivos que podem causar dor, estresse e alterações fisiológicas nas vacas, ovelhas e cabras. Além das implicações éticas, essas reações também afetam a fertilidade, a produtividade e até a qualidade dos alimentos derivados. Com o objetivo de aprimorar as biotécnicas de reprodução utilizadas na agropecuária, uma série de pesquisas da Universidade Federal Fluminense (UFF) busca desenvolver alternativas menos invasivas para o manejo dos animais.
“Trabalhamos com diferentes biotecnologias para aumentar a eficiência dos processos reprodutivos, que são fundamentais para a produção de alimentos”, resume o professor da Faculdade de Veterinária da UFF e coordenador das pesquisas, Felipe Zandonadi Brandão. A pesquisa busca alternativas sustentáveis a longo prazo para os métodos comumente utilizados, como a eletroejaculação, inseminação artificial e produção in vivo de embriões nos animais. Estas pesquisas são desenvolvidas na Fazenda Escola Cachoeiras de Macacu (FECM) da UFF.
Com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do CNPq e de produtores parceiros, os estudos iniciados em 2015 investigam protocolos hormonais, métodos de coleta de sêmen e estratégias para reduzir os níveis de estresse em diversas espécies. O objetivo da pesquisa é tornar os procedimentos reprodutivos mais eficientes sem comprometer o bem-estar animal e que sejam sustentáveis a longo prazo.
Quando o estresse interfere na produção
Com o propósito de compreender os efeitos do estresse nas espécies e medir precisamente as concentrações de cortisol, em determinadas condições, Brandão coordena dois laboratórios na UFF: o de Dosagem Hormonal e a Unidade de Pesquisa Experimental em Caprinos e Ovinos (UniPECO), situada na Fazenda Escola Cachoeiras de Macacu. Ambos são contemplados pelo Programa de Gerenciamento de Equipamentos Multiusuários da UFF (Progem), enquanto o segundo também está inserido na rede de biotérios da UFF, espaços reservados para criar e manter animais para fins de pesquisas e ensino.
O Laboratório de Dosagem Hormonal utiliza a técnica de radioimunoensaio para determinar as concentrações de cortisol, ou seja, o hormônio produzido quando o animal está em estresse, em várias espécies, não apenas nos caprinos, ovinos e bovinos. Como está inserido na rede de laboratórios multiusuários, Brandão recebe amostras de animais de todo o Brasil, como equinos, bovinos, caprinos, ovinos, antas, cobras, arraias, tubarões, entre outros. “Nós usamos a radiação para estimar as concentrações de diferentes hormônios nos animais, e para tal, é preciso de autorizações federais, uma vez que fazemos manipulamos material radioativo”, conta. Recentemente, o laboratório foi contemplado no edital da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que permitiu a compra de um novo equipamento que permite mais rapidez nas análises e, assim, o aumento da eficiência no trabalho.
Já a UniPECO, com cerca de onze anos em atividade, compõe vários prédios na Fazenda Escola usados para ensino, pesquisa e extensão. Além dos alunos utilizarem as salas de apoio, os laboratórios e o biotério, eles também executam atividades de rotina de manutenção dos animais ao longo da graduação. Durante às férias, o espaço também abre as portas para o tradicional “Estágio de Férias” com o apoio da Superintendência de Operações e Manutenção (SOMA) e da PRAES, no qual garante transporte e alimentação para os alunos da graduação que lidam com o manejo de pequenos ruminantes.
As pesquisas desde 2019 buscam aprimorar protocolos no contexto das biotecnologias reprodutivas dos animais. Foto: Arquivo Pessoal/Felipe Brandão
Mas por que é importante compreender as causas e consequências do estresse nos animais? Em situações estressoras, o gado e os pequenos ruminantes (as cabras e ovelhas) tendem a aumentar a produção do cortisol, associado às situações de alerta e medo. Em excesso, essa substância pode interferir no mecanismo da ovulação, bem como, interferir em hormônios do ciclo reprodutivo e comprometer a manutenção da gestação. A vaca da raça Nelore, a mais comum na pecuária brasileira, é um exemplo de espécie muito suscetível ao estresse e reativa aos cuidados do homem. Segundo o professor, apenas levá-la do pasto até o curral pode aumentar o cortisol circulante e assim prejudicar a fisiologia reprodutiva do animal.
Além do manejo dos animais, outro fator que pode piorar o contexto agropecuário são as condições climáticas. O estresse relacionado ao aumento da temperatura do ambiente, também impacta no processo reprodutivo . Esta condição favorece o aumento do cortisol, determinando o bloqueio da liberação de LH, um hormônio responsável pela ovulação das fêmeas e por outros processos envolvidos, e determina a queda da imunidade do animal. “São vários efeitos adversos e não é fácil medir o nível de estresse do animal”, ressalta. A coleta de sangue, a medição de temperatura do globo ocular, escalas de expressão facial das ovelhas são algumas das técnicas utilizadas para isso.
As novas biotécnicas de reprodução
Para além da discussão acerca da importância do bem-estar animal, o professor detalhou as técnicas testadas e implementadas na Fazenda Escola para melhorar o manejo e a qualidade de vida dos pequenos ruminantes, que oferecem leite e carne para dentro e fora do Brasil. “As biotécnicas reprodutivas trabalham com diferentes tecnologias, dentre as quais destacamos a coleta e processamento do sêmen, a inseminação artificial e produção in vivo e in vitro de embriões, todas elas visando aumentar a eficiência na produção animal. Talvez o que a população mais conheça seja a inseminação artificial”, aponta Brandão.
A Fazenda Escola da UFF mantém laboratórios, enfermarias e biotérios para a aplicação prática de conteúdos dos alunos da graduação de Medicina Veterinária. Foto: Arquivo Pessoal/Felipe Brandão
O princípio do uso de uma biotecnologia é a multiplicação de animais que apresentam mais características positivas, como carne de maior qualidade, maior ganho de peso e tamanho, produção de leite, por exemplo. Esse processo, chamado de melhoramento genético, é ainda mais eficaz em espécies com um intervalo de geração mais curto, como no caso das aves, porém ele também ocorre com os pequenos ruminantes. “Quando encontramos um bode que permita com que suas filhas produzam mais leite, intensificamos o uso dele para ter cada vez mais descendentes e assim aumentar a produção de leite no rebanho”, explica.
Para isso, a inseminação artificial é um dos protocolos mais utilizados na pecuária. Ela consiste na coleta e congelamento do sêmen de animais com características genéticas consideradas desejáveis. No entanto, diferente das outras espécies, as cabras e ovelhas possuem estacionalidade reprodutiva, ou seja, elas tendem a se reproduzir em períodos quando a luminosidade diminui e, para manter a produção durante o ano, os pesquisadores precisam contornar o ciclo biológico.
Em parceria com pesquisadores da Universidade da República, no Uruguai, país com uma enorme população de ovelhas, a equipe da UFF testou combinações de hormônios e medicamentos que podem aprimorar algumas técnicas utilizadas na contra estação reprodutiva, quando os machos e fêmeas apresentam pouca atividade sexual.
Quanto ao processo de coleta de sêmen, alternativas à eletroejaculação foram desenvolvidas, com intuito de reduzir o tempo e a intensidade dos estímulos elétricos durante o procedimento. Segundo o professor, protocolos com o uso de hormônios associados, fizeram com que os animais ejaculassem mais rápido e com menos desconforto, indicando a redução de estresse durante a coleta. O método habitual faz o uso de uma vagina artificial, mas nem todos se adaptam ao treinamento ou ao procedimento. Como alternativa, alguns veterinários recorrem à eletroejaculação. “Porém o procedimento é traumático, já que causa dor e estresse. Sendo assim cabe a academia desenvolver procedimentos que amenizem ou até retirem este efeito”, ressalta Brandão.
No caso das fêmeas, o que pode controlar a estacionalidade reprodutiva são os hormônios, como os implantes intravaginais. De acordo com o professor, essas ferramentas são usadas por um curto prazo nas ovelhas e cabras, mas são desconfortáveis e podem causar vaginite, uma inflamação na mucosa vaginal dos animais que é autolimitante e também leva ao desinteresse do macho pela fêmea. Portanto, outra alternativa para evitar o uso de implantes é trabalhar com as interações sociais, como o controle no contato de machos e fêmeas; tratamentos de luminosidade e linhas de medicamentos injetáveis de hormônios.
“Os animais estressados produzem menos, ganham menos peso, são mais suscetíveis a doenças e dão prejuízos”, afirma Brandão. Foto: Arquivo Pessoal/Felipe Brandão
A produção in vivo de embriões é outra técnica usada na reprodução das espécies para multiplicar os animais com características específicas. Por meio da aplicação de hormônios, as fêmeas são estimuladas a produzir vários óvulos em um mesmo ciclo reprodutivo. Depois da inseminação, os embriões são coletados e transferidos para outras fêmeas, que ficam responsáveis pela gestação – as conhecidas “barrigas de aluguel”. Diferente das vacas, éguas ou cabras, esse procedimento é mais complexo nas ovelhas, devido ao colo uterino tortuoso e de difícil acesso. “No caso dos outros animais, obtemos os embriões de forma não-cirúrgica, com uma sonda que recupera os embriões no colo uterino pela via transcervical”, aponta Brandão. “Já o que fazem no mundo inteiro com as ovelhas é abrir, expor e lavar o útero. É um procedimento cirúrgico que tem consequências.”
A partir disso, os pesquisadores passaram a testar alternativas menos invasivas. Em uma tese premiada pela CAPES, Juliana Dantas Rodrigues Santos, orientanda de doutorado de Brandão, mostrou que as técnicas transcervicais de dilatação do colo uterino e exames de ultrassom podem substituir parte dos procedimentos cirúrgicos, reduzindo a dor e o estresse das ovelhas. Segundo o professor, esse é apenas um dos procedimentos que deixaram de acontecer pelo método cirúrgico com o objetivo de promover o bem-estar dos animais.
“As avaliações hormonais e ultrassonográficas podem ser realizadas com grupos menores, de 15 a 20 animais, então parte da pesquisa é feita na Fazenda Escola”, conta Brandão. Porém, para avaliar a fertilidade das espécies, é preciso trabalhar com um número muito grande de animais, que ultrapassa de 500 por grupo experimental. “Após a primeira fase, levamos os ensaios de fertilidade para locais com rebanhos maiores, como o Uruguai ou propriedades parceiras aqui no estado”, conta. Por isso, as parcerias com a Capriana Granja Leiteira, empresa privada, e outras universidades são imprescindíveis para os testes conduzidos na UFF.
Bem-estar nos contextos de produção animal
A defesa do bem-estar animal, mesmo quando a criação é destinada ao consumo de seus produtos, é uma pauta crescente no Brasil e no mundo. Segundo o professor, um dos fatores que contribuiu para que a população passasse a se importar com os processos antes do alimento chegar até a mesa é a facilidade de acesso à informação. Isso é importante para as espécies, bem como para a produtividade dos alimentos, principalmente de leite e carnes de caprinos e ovinos, o foco das pesquisas.
Nesse sentido, a dúvida se “o ovo veio antes da galinha” passa a ser: primeiro surgiram as demandas da sociedade por transparência e por um manejo mais gentil com os animais que servem de alimento, ou a indústria deu o pontapé inicial para estimular o bem-estar dos animais ao longo do tempo de produtividade de cada um? Para Brandão, é impossível dissociar os dois fenômenos.
“Antes, os currais não eram feitos pensando no conforto, porém isso afetava a produção. Os animais estressados produzem menos, ganham menos peso, são mais suscetíveis a doenças e dão prejuízos. Uma porca, por exemplo, durante o período da gestação que foi criada em uma gaiola tem pior desempenho em relação àquela que foi criada livremente”, afirma. “Por outro lado, o consumidor começou a se preocupar com a maneira que os alimentos são produzidos. Ambas as coisas se somaram e nada melhor do que o conhecimento e a tecnologia que chegam ao campo e mostram isso diretamente para o produtor.”
O estresse e a dor causados nos protocolos reprodutivos reduzem a qualidade de vida dos animais e impactam diretamente nos produtos derivados. Foto: Arquivo Pessoal/Felipe Brandão
O pesquisador também ressalta que as condições de tratamento dos animais podem se tornar uma barreira limitante para a exportação brasileira, justamente pela população buscar saber cada vez mais sobre as origens do alimento. “Os consumidores querem saber como é produzido, como são feitas as técnicas de reprodução e manejo dos animais, entre outros. E eles estão dispostos a pagar mais caro por isso”, afirma.
Além disso, os alunos de graduação e pós-graduação em medicina veterinária também aprendem cada vez mais profundamente sobre a ética em relação aos animais. “O bem-estar animal vai longe da preocupação. Qualquer experimento que fazemos, precisamos de autorizações de órgãos responsáveis. Quando falamos de bem-estar, também estamos pensando nos dados que estamos gerando para a comunidade científica”, pontua Brandão.
Relacionado aos avanços da comunidade científica por meio dos estudos com animais, um fato relevante é a parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que recorre às cabras da Fazenda para a produção de soro hiperimune destinados para teste de vacinas humanas. “Se você, recentemente, tomou vacina de febre amarela, sarampo, rubéola e catapora, agradeça a Fazenda Escola da UFF. Há nove anos mantemos cabras para testes da Fiocruz”, conta o professor. “Todos os lotes de vacina, antes de serem liberados para o uso no Sistema Único de Saúde (SUS), devem passar por testes de potência. A Biomanguinhos usa o anticorpo produzido na nossa cabra para isso. Por meio desta parceria, mantemos a nossa estrutura e estamos procurando ampliar cada vez mais.”
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Felipe Zandonadi Brandão é professor titular do Departamento de Patologia e Clínica Veterinária da Faculdade de Veterinária da Universidade Federal Fluminense (UFF) e é coordenador e membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Medicina Veterinária (Clínica e reprodução animal). Possui pós-doutorado na Universidad de la Republica, no Uruguai, é Doutor em Ciência Animal pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Mestre em Medicina Veterinária (Reprodução animal) pela Escola de Veterinária da mesma universidade. É graduado em Medicina Veterinária pela Faculdade de Veterinária da UFF. É Cientista do Nosso Estado pela Faperj e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq nível 1B.
Por Letícia Souza
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