UFF Responde: Copa do Mundo
A Copa do Mundo de futebol ultrapassa o universo esportivo e produz impactos sociais, econômicos, culturais e políticos. Como exemplo dessa mobilização, a final da última competição, disputada entre França e Argentina, em 2022, no Catar, alcançou a marca de 1,5 bilhão de telespectadores, registrando um novo recorde para o torneio. Em 2026, a expectativa é que a Copa alcance novos patamares históricos. Pela primeira vez, 48 seleções disputarão o campeonato que será sediado na América do Norte – Estados Unidos, México e Canadá – durante os meses de junho e julho.
Nesta edição do UFF Responde, ouvimos os especialistas da Universidade Federal Fluminense (UFF), Renato Soares Coutinho, professor do Departamento de História; Cesar Vieira Marques Filho, professor do Departamento de Educação Física; e Luís Oscar Calvano Colombo, professor substituto do Departamento de Jornalismo, sobre a história da Copa do Mundo ao longo dos anos, além de discutir a inclusão no esporte e a cobertura midiática do evento.
Qual era o cenário mundial durante as primeiras edições da Copa e quais desafios foram enfrentados para sua realização e eventual consolidação?
Renato Coutinho: O esporte na virada do século XIX para o XX foi um processo global de difusão de um estilo de vida burguês e de novas formas das sociedades se relacionarem com o corpo e a higiene. É uma redefinição da dinâmica da juventude e da saúde nas sociedades modernas.
O esporte está ligado à racionalização do corpo e a uma dinâmica médica que entende o movimento como saúde. Sobre a Copa, o futebol seguiu um caminho distinto de outras modalidades: a Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA), desde o início, teve uma postura diferente do Comitê Olímpico Internacional (COI). Enquanto o COI mantinha um discurso aristocrático, internacionalista e amador, a FIFA, especialmente nos anos 1920, já entendia o futebol como um negócio que tolerava formas mistas de trabalho.
A FIFA era burguesa e o COI aristocrático; ambos eram elitistas e compartilhavam a aversão a operários e mulheres, mas a FIFA tinha uma relação mais próxima com a dimensão mercantil.
O sucesso uruguaio nas Olimpíadas de 1924 e 1928 serviu de experimento para a Copa de 1930. A Copa permitia profissionais, enquanto as Olimpíadas eram amadoras. Isso explica por que a Copa ganhou um contorno mercadológico muito mais robusto desde sua origem.
Cesar Vieira Marques Filho: Durante as primeiras edições o esporte ainda estava em um processo de internacionalização, os meios de transporte eram limitados e a comunicação ocorria de forma mais lenta. Na primeira edição, em 1930, realizada no Uruguai, houve uma série de desafios nesse sentido, principalmente relacionados à logística. Muitas seleções precisaram atravessar o Atlântico de navio, em viagens longas, o que fez com que alguns países desistissem de participar dessa Copa.
Além disso, a própria ideia de uma competição mundial buscava se legitimar. O futebol já era popular em diversos países, mas os Jogos Olímpicos eram vistos como o principal evento esportivo internacional. A primeira edição representou um movimento importante da FIFA para estabelecer uma edição própria, exclusivamente do futebol.
A consolidação da Copa como um mega evento ocorreu gradualmente, pois ela conseguiu unir diferentes dimensões do esporte: competição, identidade nacional, o esporte espetáculo e um pertencimento cultural.
Oscar Colombo: A Copa do Mundo começa logo após a quebra da Bolsa de Nova York, em um cenário de muita pobreza e países quebrados. Naquele momento, alguns países adotaram regimes autoritários, o que era um problema enorme para a democracia. A FIFA criou a competição tentando mudar o foco e fazer algo igualitário.
O Uruguai sediou a primeira em 1930 e a Itália sediou a segunda edição em 1934 e a escolha teve influência direta do regime fascista de Mussolini. Em 1938, esperava-se que voltasse para a América do Sul, na Argentina, mas acabou acontecendo na França. Isso gerou uma politicagem enorme e a Argentina e o Uruguai boicotaram o evento.
O mundo vivia aquele conflito de visões, com Hitler ocupando espaços na Alemanha. A edição de 1942, que seria no Brasil ou na Alemanha (pelo mesmo esquema da Itália em 1934, devido à força do nazismo de Hitler), foi cancelada porque estourou a Segunda Guerra Mundial em 1939. Estádios foram usados para fins militares e muitos atletas morreram em combate. A Copa só voltou em 1950, no Brasil. No início era um amadorismo, uma paixão romântica, mas sob um cenário bélico de divisão de poderes entre EUA e União Soviética na Guerra Fria.
O que cada edição da Copa do Mundo consegue nos contar sobre o cenário da época em que ela ocorreu?
Renato Coutinho: As Copas trazem elementos da dinâmica local e nacional, mas ela sempre será este espaço de fronteira entre eventos nacionais e internacionais. A FIFA é feita de federações nacionais dentro de uma dinâmica de elites dirigentes que circulam pelo mundo.
A competição é o ponto de encontro e fronteira entre o nacional e o internacional. No Pós-Guerra, vemos as Copas como lugar de dramatização de tensões geopolíticas. É a dinâmica das nações inseridas em disputas universais de poder.
Nos anos 1970, as Copas foram marcadas pelas ditaduras latino-americanas. A de 1978 é emblemática: a ditadura argentina tentou instrumentalizar o evento, mas a própria realização da Copa permitiu que o mundo visse o cenário de violência política e autoritarismo através das denúncias de agentes democráticos e da imprensa internacional. Essa fronteira complexa valeu também para o Brasil em 1970 e para a Itália em 1990, vencida pela recém-unificada Alemanha. São eventos que dramatizam tensões que partem do nacional para o internacional.
Cesar Vieira Marques Filho: A Copa do Mundo funciona muito como uma fotografia do futebol da sua época. Se observarmos uma edição específica, conseguimos identificar tendências táticas, características físicas dos atletas, reflexos das formas de treinamento e até mesmo valores culturais associados. Nas primeiras décadas, por exemplo, predominava um futebol mais ofensivo, com organização coletiva menor. Com o tempo, surgiram esquemas táticos mais sofisticados, como o WM, o 4-2-4 brasileiro e o Futebol Total holandês na década de 1970, evoluindo para modelos complexos de ocupação de espaço, transições e pressão.
Além das questões táticas, as Copas revelam mudanças na preparação dos atletas. Hoje, os jogadores são submetidos a processos altamente especializados, atrelados a aspectos nutricionais, psicológicos e físicos, o que é muito diferente das primeiras edições.
A Copa demonstra a evolução das concepções sobre o ensino e desenvolvimento do jogo. Em diferentes momentos valorizamos habilidades distintas como: criatividade individual, disciplina tática, intensidade física e inteligência coletiva. Por isso, cada edição não conta apenas a história do futebol, mas como a sociedade compreende o desempenho esportivo naquele momento.
Quando pensamos em legado, qual é a principal contribuição da Copa do Mundo?
Renato Coutinho: Sobre legado, além da infraestrutura, eu destacaria o debate sobre o uso do espaço e do dinheiro público. Os interesses comerciais das multinacionais são confrontados por associações, torcedores e partidos.
A Copa gera um debate público sobre governabilidade, governança, direitos e participação política. Mesmo a Copa nos EUA trará à tona elementos do governo Trump e sua relação com países que sofrem intervenção militar.
O esporte é esse ‘lugar de dramatização’ das hierarquias e dilemas das sociedades modernas, como diz o Roberto DaMatta. É muito diferente da ideia de que o futebol é apenas controle ou manipulação; ele é um espaço de conflito e tensão social que desperta protestos e debates essenciais para a construção das sociedades modernas.
Cesar Vieira Marques Filho: Sobre a palavra legado, num primeiro momento ela nos remete a estádios, infraestrutura ou impactos econômicos, mas ela vai muito além. Talvez o principal legado seja de natureza cultural e simbólica. A competição contribui para fortalecer o futebol como uma linguagem universal, capaz de conectar pessoas de diferentes origens, culturas e condições sociais, o que gera memórias coletivas que ajudam a construir identidades nacionais e locais relacionadas ao esporte.
Do ponto de vista educacional, a Copa amplia o acesso ao conhecimento sobre futebol. Crianças e jovens passam a conhecer diferentes estilos de jogo, atletas, países e culturas, favorecendo uma aprendizagem que vai além das dimensões mais técnicas do jogo, o que inclui valores como: cooperação, respeito às diferenças e convivência com a diversidade.
Embora os legados materiais sejam mais debatidos, o mais duradouro é essa ampliação do interesse social pelo esporte, esse impacto cultural que permanece por décadas e gera influência na forma como as pessoas praticam, acompanham e significam o esporte em suas vidas.
A Copa, assim como o futebol, é um palco de disputas simbólicas e de poder. Como esta e as recentes edições exemplificam essas disputas?
Renato Coutinho: A FIFA coloca a Copa do Mundo em um grande embate entre nacionalidades, e isso reflete tensões políticas e militares. Há muitos estudos sobre o soft power por meio do futebol. Vemos a Rússia fora da Copa pela guerra na Ucrânia e a questão do Irã, que saiu recentemente na imprensa que para jogar a próxima Copa, a delegação vai ter que fazer um ‘bate e volta’ entre o México e os Estados Unidos por questões diplomáticas e logísticas. Por muito pouco não tivemos a Venezuela na Copa também. Há uma questão à respeito da imigração e da repressão interna nos Estados Unidos, com torcedores sendo presos via reconhecimento facial e biometria.
Historicamente, já tivemos o enfrentamento entre as Alemanhas Oriental e Ocidental na Guerra Fria. Hoje, com mais seleções, a competição está repleta de tensões vinculadas à política internacional agressiva dos EUA, seja militar ou tarifária. A Copa do Mundo é muito mais que um campo esportivo; é um lugar de manifestação de interesses nacionais.
A competição tem sido um espaço de ampliação da inclusão no esporte? Quais avanços e desafios ainda existem nesse processo?
Cesar Vieira Marques Filho: Podemos perceber que a Copa do Mundo tem contribuído para ampliar a inclusão, mas que esse processo ocorre de forma gradual e apresenta desafios importantes. Um dos avanços mais evidentes é a crescente valorização do futebol feminino, especialmente após o fortalecimento das copas femininas e o aumento da visibilidade das atletas. Também citamos avanços na representatividade étnica e cultural, o futebol tornou-se um desses espaços sociais mais diversos do mundo, reunindo atletas de diferentes origens e trajetórias.
Mas por outro lado, ainda existem desafios nesse processo: em muitos países os jovens encontram barreiras econômicas e estruturais que os impedem de praticar esportes, e questões de gênero, racismo, xenofobia e preconceitos diversos continuam presentes. Sob a ótica da pedagogia do esporte, a real inclusão significa criar ambientes onde todos se sintam pertencentes e possam aprender. Nesse sentido, a Copa tem um enorme potencial inspirador, mas a inclusão efetiva depende principalmente de políticas públicas, do trabalho em ambientes escolares, do empenho dos clubes e projetos esportivos locais.
Como a cobertura midiática da Copa do Mundo se transformou desde as transmissões por rádio até a era das redes sociais e do streaming?
Oscar Colombo: No início, o Diário da Noite, no Rio de Janeiro, recebia a transmissão da Copa de 1930 no Uruguai via cabo submarino. Na porta do edifício do jornal, alto-falantes instalados anunciavam o que estava acontecendo; não era tempo real, mas era muito rápido para a época. Em 1938, o Brasil começou a ouvir a Copa na França pelo rádio – foi o primeiro evento esportivo na Europa transmitido aqui.
A televisão surgiu no Brasil em 1950, mas a primeira Copa transmitida em vídeo para o mundo foi a de 1954, na Suíça, apenas para oito países europeus. O brasileiro só foi ver a Copa pela TV em 1970. A competição foi transmitida a cores lá do México, mas os brasileiros assistiram em preto e branco.
Durante anos, grandes empresas midiáticas monopolizaram os direitos de transmissão do evento. Em 2022, esse monopólio acabou com as transmissões no YouTube e, agora, pela primeira vez, os canais de televisão não irão transmitir todas as partidas da copa, com os direitos integrais pertencendo a um canal que surgiu exclusivamente na internet.
O que explica a capacidade da Copa do Mundo de mobilizar audiências globais tão diversas, mesmo sendo um evento que abarca diversas culturas e preferências de consumo, como por exemplo o país sede Estados Unidos e o Brasil?
Oscar Colombo: Primeiro porque é muito explorada pela mídia. Virou um negócio, e como negócio, tem patrocínio e atrai gente. É um ciclo vicioso e virtuoso economicamente.
Além do aspecto econômico, temos os personagens, os ídolos. O garotinho hoje veste a camisa de um jogador da Alemanha que joga no Arsenal ou no Liverpool. Todo mundo gosta de heróis, e a Copa cria esses heróis e vilões. Mas o sentido de nacionalidade é muito forte. Tem gente que não gosta de futebol, mas veste a camisa de quatro em quatro anos e torce como se fosse a última coisa da vida. Isso cria rivalidades alimentadas pela mídia e pela política.
Em 1986, no jogo Inglaterra e Argentina, Maradona fez dois gols, sendo um golaço e o outro de mão e todos se lembraram da Guerra das Malvinas. Temos a rivalidade com Argentina, Uruguai e França, e desde o 7×1, o brasileiro quer revanche contra a Alemanha. O patriotismo cresceu muito desde 1958. Nelson Rodrigues dizia que tínhamos o ‘complexo de vira-lata’, mas a vitória de 1958, seguida por 1962 e 1970, fez o brasileiro acreditar mais no Brasil. Esse sentimento apaixonante, unido a campanhas publicitárias e marcas, potencializa a mobilização da Copa.
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Renato Soares Coutinho é professor Adjunto de História do Brasil Republicano no Instituto de História e no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense. Coordenador do ”Banda d’Álém: Laboratório Interinstitucional de História de Niterói e História Fluminense” e pesquisador do Grupo de Pesquisa ”Brasil Republicano – Pesquisadores em História Cultural e Política” (BR-PHCP). Foi coordenador do curso de Graduação em História da Universidade Federal Fluminense/ Modalidade: Bacharelado (2021-2023) e editor da Revista Tempo/UFF (2019-2021). Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (2013); mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2008); graduado em História (Bacharelado e Licenciatura Plena) pela Universidade Federal Fluminense (2004).
Cesar Vieira Marques Filho é Graduado em Educação Física – Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria. Graduado em Educação Física – Bacharelado pelo Centro Universitário de Jaguariúna. Especialista em Educação Física Escolar pela Universidade Federal de Santa Maria. Especialista em Processos Didático-Pedagógicos para Cursos na Modalidade a Distância pela Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Mestre em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Maria. Doutor em Educação Física, na área da Biodinâmica do Movimento e Esporte pela Universidade Estadual de Campinas. Integrante do Laboratório de Estudo em Pedagogia do Esporte (LEPE/UNICAMP). Professor do Curso de Educação Física da Universidade Federal Fluminense. Docente no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação Física da Universidade Católica de Brasília.
Luis Oscar Calvano Colombo é professor substituto do Curso de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense. Doutorando em Mídia e Cotidiano – PPGMC – UFF e Mestre em Educação, Cultura e Comunicação na UERJ/FEBF, possui graduação em Comunicação Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1993) e é especialista em Comunicação para o Terceiro Setor pela UCAM.
Por Guilherme Neves.
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